{"id":336,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/ja-vivemos-em-uma-simulacao\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"ja-vivemos-em-uma-simulacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/ja-vivemos-em-uma-simulacao\/","title":{"rendered":"j\u00e1 vivemos em uma simula\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Metaverso, NFT e <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/inteligencia-artificial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">intelig\u00eancia artificial<\/a> s\u00e3o os assuntos mais sexy do universo da tecnologia \u2014pelo menos neste momento. Al\u00e9m de disputar a aten\u00e7\u00e3o de investidores, est\u00e3o avivando algumas perguntas filos\u00f3ficas: o que \u00e9 real? O que \u00e9 a realidade?<\/p>\n<p>S\u00e3o questionamentos antigos na filosofia, mas que agora ganham um tempero da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Qual a diferen\u00e7a entre uma cadeira no nosso mundo f\u00edsico para uma cadeira no metaverso? Algu\u00e9m pode argumentar que uma \u00e9 feita de \u00e1tomos enquanto a outra, de bits. A materialidade \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Mas o que diferencia o NFT de uma obra de arte de sua c\u00f3pia digital? Neste caso, a materialidade \u00e9 a mesma: bits.<\/p>\n<p>E o que diferencia a nossa experi\u00eancia no mundo f\u00edsico de um ambiente digital imersivo como o metaverso? Ser\u00e1 que j\u00e1 n\u00e3o estamos vivendo em uma simula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Eu voltei a esse assunto porque recentemente li o novo livro de David Chalmers, um dos grandes fil\u00f3sofos da mente. Na obra &#8220;Reality+&#8221;, ele faz um passeio pelas grandes ideais da filosofia e utiliza a tecnologia de realidade virtual e metaverso para apresentar novas perspectivas para quest\u00f5es bem estabelecidas. \u00c9 imposs\u00edvel come\u00e7ar a leitura e n\u00e3o se questionar sobre o que as tecnologias emergentes podem causar.<\/p>\n<p>Neste texto, eu pretendo apresentar algumas das ideais principais, mas antes disso vou introduzir o assunto contando uma pequena anedota milenar.<\/p>\n<p>O mestre tao\u00edsta Chuang-Tzu, depois de caminhar muito durante um dia ensolarado, deitou-se debaixo de uma \u00e1rvore e caiu em um sono profundo. Sonhou que era uma borboleta, passeando pelos campos por onde havia acabado de passar.<\/p>\n<p>Ao acordar, ele disse para si mesmo:<\/p>\n<p>&#8220;Estou diante do problema filos\u00f3fico mais complicado da minha vida. Quem sou eu? Sou um homem que sonhou que era uma borboleta? Ou sou uma borboleta sonhando que se transformou em um homem?&#8221;<\/p>\n<p>Chuang-Tzu n\u00e3o p\u00f4de ter a certeza de que a vida que estava experienciando era real. Como poderia provar que era um humano que tinha sonhado com a borboleta e n\u00e3o o contr\u00e1rio?<\/p>\n<p>Com o crescimento exponencial das tecnologias digitais, antigos questionamentos podem ser substitu\u00eddos por novos. O sonho agora d\u00e1 lugar a possibilidade de estarmos em um universo simulado.<\/p>\n<p>Uns dias atr\u00e1s eu perguntei para uma sala cheia de alunos da gradua\u00e7\u00e3o como poderiam me provar que n\u00e3o estavam em uma simula\u00e7\u00e3o. A turma se manteve em sil\u00eancio por alguns segundos. Depois alguns estudantes come\u00e7aram a apresentar argumentos, os quais n\u00e3o tive muita dificuldade em refutar.<\/p>\n<p>Eu estava trabalhando com a &#8220;hip\u00f3tese da simula\u00e7\u00e3o&#8221;, que prop\u00f5e que vivemos em uma simula\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o temos como saber disso.<\/p>\n<p>Se eu pedir para voc\u00ea me provar que n\u00e3o est\u00e1 em uma simula\u00e7\u00e3o, voc\u00ea pode achar que tem muitas evid\u00eancias para isso. Eu tendo a achar que n\u00e3o. Alguns autores, como o pr\u00f3prio Chalmers, acham que isso seria at\u00e9 mesmo imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Sabe por qu\u00ea? Porque qualquer evid\u00eancia que voc\u00ea apresente \u2014seja uma \u00e1rvore, um v\u00edrus ou at\u00e9 um sistema ca\u00f3tico\u2014 pode ser perfeitamente resultado da pr\u00f3pria simula\u00e7\u00e3o. Uma simula\u00e7\u00e3o muito bem produzida. Sem contar o fato de que porque nascemos dentro dessa simula\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter\u00edamos como saber a diferen\u00e7a entre uma \u00e1rvore digital e uma f\u00edsica \u2014nem se existira uma vers\u00e3o f\u00edsica.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Nick Bostrom, de Oxford, ganhou notoriedade ao propor um artigo famoso sobre o tema. Ele apresentou um argumento estat\u00edstico para a simula\u00e7\u00e3o, na qual a humanidade se desenvolveu tanto que as tecnologias \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o poderiam criar diversos universos simulados.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 mais ou menos assim: as pessoas poderiam criar v\u00e1rios universos com muitas intelig\u00eancias artificiais conscientes dentro deles. Dado que a quantidade de universos simulados seria enorme, e, consequentemente, a quantidade de pessoas simuladas seria ainda maior, ent\u00e3o o mais prov\u00e1vel seria estarmos entre os simulados do que entre os programadores.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a probabilidade de estarmos dentro de uma simula\u00e7\u00e3o torna-se bastante razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas tudo isso faz diferen\u00e7a para o que somos?<\/p>\n<p>Penso que n\u00e3o. A minha experi\u00eancia de estar nesse mundo \u2014simulado ou n\u00e3o\u2014 \u00e9 real. Eu me sinto consciente e sinto o mundo. E, para Chalmers, o fato de estarmos em uma simula\u00e7\u00e3o n\u00e3o significaria que a realidade n\u00e3o exista, ela apenas seria feita de informa\u00e7\u00e3o. Uma esp\u00e9cie diferente da realidade, mas ainda assim real.<\/p>\n<p>O mesmo acontece com o metaverso.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese da simula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e infalsific\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 uma hip\u00f3tese cient\u00edfica, a qual podemos test\u00e1-la para tentar refut\u00e1-la. No entanto, ela n\u00e3o deixa de ser coerente \u2014e, para muitos, at\u00e9 aterrorizante.<\/p>\n<p>Eu gosto de pensar sobre a hip\u00f3tese da simula\u00e7\u00e3o porque nos incentiva a refletir sobre a natureza da realidade e como nos relacionaremos com os universos digitais que criaremos muito em breve. O que ser\u00e1 moralmente certo e errado no metaverso? Como deveremos nos comportar?<\/p>\n<p>Se entendermos o metaverso como uma realidade genu\u00edna \u2014apenas um pouco diferente\u2014, talvez as respostas sejam distintas de quando o julgamos como uma realidade de segunda ordem.<\/p>\n<p>De qualquer forma, desafios filos\u00f3ficos, \u00e9ticos e de governan\u00e7a ser\u00e3o centrais nos universos simulados que, desta vez, n\u00f3s que criaremos.<\/p>\n<p><em>* <strong>Diogo Cortiz<\/strong> \u00e9 cientista cognitivo, futurista e criador de conte\u00fado. Professor na PUC-SP. Doutor em Tecnologias da Intelig\u00eancia e Design Digital pela PUC-SP, com PhD fellowship pela Universit\u00e9 Paris I &#8211; Sorbonne. Especialista em Neuroci\u00eancia. Fez est\u00e1gio p\u00f3s-doc em realidade virtual na Universidade de Salamanca &#8211; Espanha. Foi professor visitante no laborat\u00f3rio de Ci\u00eancia Cognitiva da Queen Mary University of London (Reino Unido). Trabalha com pesquisas na intersec\u00e7\u00e3o entre Design, IA e Ci\u00eancia Cognitiva.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/analises\/ultimas-noticias\/2022\/04\/17\/precisamos-de-metaverso-se-ja-vivemos-em-uma-simulacao.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Metaverso, NFT e intelig\u00eancia artificial s\u00e3o os assuntos mais sexy do universo da tecnologia \u2014pelo menos neste momento. Al\u00e9m de disputar a aten\u00e7\u00e3o de investidores, est\u00e3o avivando algumas perguntas filos\u00f3ficas: o que \u00e9 real? O que \u00e9 a realidade? S\u00e3o questionamentos antigos na filosofia, mas que agora ganham um tempero da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. 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