{"id":1552,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/a-historia-por-tras-da-imagem-de-rosalind-franklin\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"a-historia-por-tras-da-imagem-de-rosalind-franklin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/a-historia-por-tras-da-imagem-de-rosalind-franklin\/","title":{"rendered":"a hist\u00f3ria por tr\u00e1s da imagem de Rosalind Franklin"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p class=\"lead\">Tirada h\u00e1 70 anos, a foto que foi essencial para decifrar a estrutura do DNA simboliza o talento de uma jovem cientista alvo do que muitos consideram uma injusti\u00e7a &#8216;imperdo\u00e1vel&#8217;.<\/p>\n<p>Nos arquivos da Universidade King&#8217;s College London, no Reino Unido, est\u00e1 guardado o original de uma das fotos mais famosas da hist\u00f3ria da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>A pequena chapa mede apenas cerca de 10 cent\u00edmetros de cada lado, mas seu legado \u00e9 gigantesco.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi apenas uma pe\u00e7a-chave em uma das maiores descobertas do s\u00e9culo 20. Tamb\u00e9m simboliza o talento e a dedica\u00e7\u00e3o de uma jovem cientista alvo do que muitos consideram uma injusti\u00e7a &#8220;imperdo\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>A qu\u00edmica brit\u00e2nica Rosalind Franklin tinha 31 anos quando tirou, em 6 de maio de 1952, a c\u00e9lebre foto junto ao estudante de doutorado Raymond Gosling.<\/p>\n<p>A imagem, que ela chamou de Foto 51, foi essencial para decifrar a estrutura do DNA, a mol\u00e9cula que transmite a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica e \u00e9 respons\u00e1vel pela continuidade da vida.<\/p>\n<p>Em 1962, a descoberta rendeu o Pr\u00eamio Nobel de Medicina a tr\u00eas cientistas: o geneticista americano James Watson e os f\u00edsicos brit\u00e2nicos Francis Crick e Maurice Wilkins.<\/p>\n<p>Franklin havia morrido quatro anos antes, sem saber o qu\u00e3o crucial fora sua contribui\u00e7\u00e3o para a descoberta.<\/p>\n<p>Setenta anos depois da famosa Foto 51, a BBC News Mundo, servi\u00e7o de not\u00edcias em espanhol da BBC, relembra a hist\u00f3ria por tr\u00e1s da imagem, por que \u00e9 t\u00e3o importante e qual \u00e9 seu legado.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x1 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/7b\/2022\/06\/06\/rosalind-franklin-tinha-31-anos-quando-tirou-a-famosa-foto-com-aluno-de-doutorado-raymond-gosling-em-6-de-maio-de-1952-1654552730899_v2_750x1.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"rosalind - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x1&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;md&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x1&quot;}\" width=\"750\" height=\"1\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 0.13333333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>Rosalind Franklin tinha 31 anos quando tirou a famosa foto com aluno de doutorado Raymond Gosling em 6 de maio de 1952<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h3>&#8216;Uma intelig\u00eancia alarmante&#8217;<\/h3>\n<p>Franklin nasceu em 1920 em meio a uma fam\u00edlia de banqueiros em Londres.<\/p>\n<p>E, desde crian\u00e7a, &#8220;fazia c\u00e1lculos matem\u00e1ticos para se divertir&#8221; e tinha &#8220;uma intelig\u00eancia alarmante&#8221;, segundo lembrou uma tia. O relato \u00e9 da escritora Brenda Maddox, falecida em 2019 e cuja biografia de Franklin continua sendo uma das grandes refer\u00eancias sobre a vida da cientista.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s fazer doutorado em f\u00edsica e qu\u00edmica pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, Franklin logo ganhou destaque por sua pesquisa sobre a estrutura f\u00edsica das mol\u00e9culas.<\/p>\n<p>Seus estudos sobre carv\u00e3o foram usados durante a Segunda Guerra Mundial na produ\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras de g\u00e1s.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica na qual Franklin havia se especializado era a cristalografia de raios X.<\/p>\n<p>&#8220;Esta t\u00e9cnica foi aplicada antes da Segunda Guerra Mundial para determinar a estrutura de rochas e minerais&#8221;, explica \u00e0 BBC News Mundo Miguel Garc\u00eda-Sancho, professor e pesquisador de hist\u00f3ria da ci\u00eancia da Universidade de Edimburgo, na Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p>&#8220;Mas depois da guerra houve muito interesse em usar as t\u00e9cnicas da f\u00edsica em aspectos mais relacionados \u00e0 vida, e foi a\u00ed que come\u00e7ou a ser usada para determinar a estrutura das mol\u00e9culas biol\u00f3gicas.&#8221;<\/p>\n<h3>Como se obt\u00e9m uma imagem com cristalografia de raios X?<\/h3>\n<p>O pr\u00f3prio Gosling, que faleceu em 2015, explicou em um document\u00e1rio da r\u00e1dio p\u00fablica australiana:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma fotografia no sentido de que voc\u00ea coloca sua m\u00e3o e obt\u00e9m uma radiografia mostrando seus ossos. Aqui o que voc\u00ea faz \u00e9 pegar um esp\u00e9cime cristalino e coloc\u00e1-lo no caminho de um feixe de raios X.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E o que acontece se chama difra\u00e7\u00e3o. O raio se dispersa em v\u00e1rios \u00e2ngulos, de acordo com a estrutura molecular do cristal.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Rodeando o cristal com um <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/splash\/filmes\/\">filme<\/a> \u00e9 poss\u00edvel ent\u00e3o capturar essa difra\u00e7\u00e3o em manchas com diferentes posi\u00e7\u00f5es e intensidades. E depois usando a matem\u00e1tica voc\u00ea pode deduzir a partir desse padr\u00e3o de difra\u00e7\u00e3o qual era a estrutura real da mol\u00e9cula.&#8221;<\/p>\n<p>Para obter a Foto 51, Franklin teve que aperfei\u00e7oar os instrumentos e realizar uma exposi\u00e7\u00e3o de 100 horas.<\/p>\n<p>&#8220;Tecnicamente era muito complicado e, na verdade, havia pouca gente que dominava como ela esta t\u00e9cnica&#8221;, diz Garc\u00eda-Sancho.<\/p>\n<p>&#8220;E voc\u00ea precisava ter um conhecimento matem\u00e1tico muito avan\u00e7ado para depois poder interpretar as fotos.&#8221;<\/p>\n<p>Em contrapartida, ao ajustar continuamente o equipamento, Franklin exp\u00f4s seu corpo \u00e0 radia\u00e7\u00e3o, um dos fatores que anos depois pode ter contribu\u00eddo para o c\u00e2ncer que lhe custou a vida.<\/p>\n<h3>Choque de personalidade<\/h3>\n<p>Franklin aperfei\u00e7oou sua t\u00e9cnica por quatro anos em um laborat\u00f3rio de prest\u00edgio em Paris, na Fran\u00e7a, antes de voltar a Londres, onde seus conhecimentos em cristalografia renderam um convite para trabalhar no King&#8217;s College.<\/p>\n<p>De cara, um mal-entendido contribuiu para o que acabaria sendo um ambiente insuport\u00e1vel para a cientista.<\/p>\n<p>O diretor do laborat\u00f3rio de biof\u00edsica do King&#8217;s College, JT Randall, foi quem contratou Franklin.<\/p>\n<p>&#8220;E disse a ela que trabalharia comigo para descobrir a estrutura do DNA&#8221;, relatou Gosling.<\/p>\n<p>&#8220;O que ele n\u00e3o disse a ela foi que Maurice Wilkins estava trabalhando nesse tema.&#8221;<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x1 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/d9\/2022\/06\/06\/maurice-wilkins-fisico-do-kings-college-e-franklin-sentiram-uma-antipatia-mutua-desde-o-inicio-1654552851052_v2_750x1.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"maurice - Getty Images - Getty Images\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x1&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;md&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x1&quot;}\" width=\"750\" height=\"1\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 0.13333333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>Maurice Wilkins, f\u00edsico do King&#8217;s College, e Franklin &#8216;sentiram uma antipatia m\u00fatua desde o in\u00edcio&#8217;<\/p>\n<p> <span>Imagem: Getty Images<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Wilkins, que estava viajando quando Franklin chegou, presumiu que ela seria sua assistente. Franklin, por sua vez, &#8220;obteve de Randall a impress\u00e3o de que a estrutura do DNA era problema seu&#8221;.<\/p>\n<p>Ao mal-entendido se somou um choque visceral de personalidades.<\/p>\n<p>Gosling lembra que, quando Franklin chegou ao King&#8217;s College, ele &#8220;a admirava&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ela tinha uma personalidade forte e era uma cientista segura de si mesma por seus trabalhos anteriores&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Seu poder de concentra\u00e7\u00e3o era extraordin\u00e1rio, e conseguia realizar em um dia de trabalho o que outros levavam v\u00e1rios dias para terminar.&#8221;<\/p>\n<p>A doutora em biologia Carolina Mart\u00ednez Pulido escreveu v\u00e1rios artigos e livros sobre o papel das mulheres nas ci\u00eancias biol\u00f3gicas e \u00e9 colaboradora do site mujeresconciencia.com. Para ela, &#8220;Franklin e Wilkins sentiram uma antipatia m\u00fatua desde o in\u00edcio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Uma raz\u00e3o para estas diverg\u00eancias tamb\u00e9m pode estar no fato de que Franklin era mulher e, por isso, Wilkins se sentia incapaz de aceit\u00e1-la como colega e discutir abertamente com ela.&#8221;<\/p>\n<h3>&#8216;Um roubo e uma trai\u00e7\u00e3o&#8217;<\/h3>\n<p>Talvez um dos epis\u00f3dios mais conhecidos da hist\u00f3ria da Foto 51 seja que Wilkins a mostrou a Watson sem o conhecimento de Franklin.<\/p>\n<p>&#8220;Este fato foi descrito como um roubo e uma verdadeira trai\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisadora. Algo de que ela nunca teve conhecimento&#8221;, diz Mart\u00ednez Pulido.<\/p>\n<p>Watson e Crick trabalhavam no Laborat\u00f3rio Cavendish da Universidade de Cambridge e corriam contra o tempo para decifrar a estrutura do DNA antes de seu principal concorrente, Linus Pauling, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Watson relatou em seu livro <em>A dupla h\u00e9lice: Como descobri a estrutura do DNA<\/em> sua rea\u00e7\u00e3o ao ver a foto 51: &#8220;Meu queixo caiu e meu cora\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a acelerar&#8221;.<\/p>\n<p>Para Mart\u00ednez Pulido, Watson imediatamente &#8220;compreendeu que a simplicidade do diagrama, com uma cruz preta dominando a fotografia, era a prova de que a mol\u00e9cula tinha uma estrutura helicoidal&#8221;.<\/p>\n<p>Outra vers\u00e3o afirma que Watson, que n\u00e3o entendia de cristalografia, desenhou para Crick o que tinha visto, e foi Crick quem percebeu imediatamente que se tratava de uma h\u00e9lice.<\/p>\n<h3>As duas formas de DNA<\/h3>\n<p>A nitidez sem precedentes da Foto 51 foi poss\u00edvel gra\u00e7as a uma descoberta chave de Franklin: havia duas formas de DNA e, para distingui-las e obter uma imagem clara, era essencial controlar a umidade.<\/p>\n<p>&#8220;Franklin aperfei\u00e7oou t\u00e9cnicas de hidrata\u00e7\u00e3o no King&#8217;s College que permitiram a ela obter fibras de DNA com alta cristalinidade&#8221;, explica Mart\u00ednez Pulido.<\/p>\n<p>&#8220;Com seu trabalho, ela comprovou a exist\u00eancia da chamada forma A do DNA, que foi alcan\u00e7ada em uma umidade relativa de cerca de 75%. Al\u00e9m disso, ela mostrou que em n\u00edveis ainda mais altos de umidade acontecia uma mudan\u00e7a estrutural bem definida que levava a um novo tipo de diagrama, a chamada forma B, que \u00e9 como se encontra a mol\u00e9cula normalmente em organismos vivos.<\/p>\n<p>A falta de clareza nas fotos de outros pesquisadores se devia \u00e0 mistura de ambas as formas, o que dificultava a interpreta\u00e7\u00e3o das imagens.<\/p>\n<p>&#8220;Franklin optou por estudar as duas formas separadamente, e isso foi um grande acerto porque conseguiu uma s\u00e9rie de dados que lan\u00e7aram luz sobre a poss\u00edvel arquitetura da mol\u00e9cula&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O grau de hidrata\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula foi fundamental para obter uma imagem n\u00edtida da estrutura do DNA, e ningu\u00e9m havia reparado nisso antes de Rosalind Franklin.&#8221;<\/p>\n<p>Uma das imagens da forma B era justamente a famosa Foto 51 que, segundo Gosling, correspondia &#8220;lindamente&#8221; \u00e0 estrutura de h\u00e9lice.<\/p>\n<h3>A outra pe\u00e7a chave do quebra-cabe\u00e7a<\/h3>\n<p>Watson e Crick tamb\u00e9m tiveram acesso a um relat\u00f3rio crucial no qual Franklin analisava seus dados e inclu\u00eda medi\u00e7\u00f5es de par\u00e2metros na Foto 51.<\/p>\n<p>JT Randall, do King&#8217;s College, havia solicitado aos pesquisadores em seu laborat\u00f3rio um resumo de seu trabalho tendo em vista a visita de um comit\u00ea do Conselho de Pesquisa M\u00e9dica do Reino Unido (MRC, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Um dos membros do comit\u00ea que recebeu o relat\u00f3rio foi Max Perutz, um jovem cristal\u00f3grafo do Laborat\u00f3rio Cavendish em Cambridge, que passou o relat\u00f3rio para Watson e Crick.<\/p>\n<p>Perutz viria a afirmar posteriormente que n\u00e3o viu nenhum problema em fazer isso porque &#8220;n\u00e3o estava marcado como confidencial&#8221;.<\/p>\n<p>Aaron Klug, Pr\u00eamio Nobel de Medicina com quem Franklin mais tarde colaboraria, observou em um document\u00e1rio na PBS, a rede de televis\u00e3o p\u00fablica americana: &#8220;O relat\u00f3rio para o MRC continha os dados de Franklin&#8230; todos os par\u00e2metros e sobretudo a simetria. Foi a simetria que indicou a Crick que as duas cadeias da mol\u00e9cula corriam em dire\u00e7\u00f5es opostas&#8221;.<\/p>\n<p>O especialista em biof\u00edsica Juan A. Subirana, pesquisador s\u00eanior e professor aposentado da Universidade Polit\u00e9cnica da Catalunha, explicou \u00e0 BBC News Mundo que &#8220;por meio de c\u00e1lculos detalhados, Franklin demonstrou que o DNA era uma h\u00e9lice composta por duas mol\u00e9culas, ou seja, era um dupla h\u00e9lice&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Deve-se registrar que, na \u00e9poca em que estes trabalhos foram feitos, n\u00e3o existia computador, todos os c\u00e1lculos eram feitos com calculadoras manuais e r\u00e9gua de c\u00e1lculo&#8221;.<\/p>\n<h3>Poderiam ter feito isso sem ela?<\/h3>\n<p>Garc\u00eda-Sancho afirma que Watson e Crick tinham grande habilidade para interpretar dados e formular hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que eles tiveram a criatividade de oferecer uma interpreta\u00e7\u00e3o da fotografia em que a estrutura f\u00edsica da dupla h\u00e9lice era quimicamente poss\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Mas o historiador acredita que sem a foto e os dados de Franklin, Watson e Crick n\u00e3o poderiam ter publicado seu famoso estudo em 1953.<\/p>\n<p>&#8220;Eles n\u00e3o tinham nenhum banco de dados f\u00edsico com o qual pudessem considerar a estrutura de dupla h\u00e9lice. Sem esta foto, sem o relat\u00f3rio e sem estes c\u00e1lculos f\u00edsicos para chegar ao modelo gen\u00e9rico de h\u00e9lice do DNA, eles n\u00e3o poderiam ter feito o trabalho que fizeram.&#8221;<\/p>\n<p>Mart\u00ednez Pulido destaca que Franklin esteve muito perto de resolver o enigma da estrutura do DNA.<\/p>\n<p>&#8220;A cientista interpretou que o esqueleto de a\u00e7\u00facar-fosfato estava disposto para fora, em contato com a \u00e1gua, enquanto as bases nitrogenadas se projetavam para o interior e, mediante o estabelecimento de pontes de hidrog\u00eanio entre elas, poderiam manter as cadeias unidas. \u00c9 evidente que esta era uma imagem quase correta, muito pr\u00f3xima daquela que seria a definitiva.&#8221;<\/p>\n<h3>O an\u00fancio da descoberta<\/h3>\n<p>Watson e Crick publicaram seu famoso estudo de DNA na renomada revista cient\u00edfica Nature em 25 de abril de 1953.<\/p>\n<p>A Nature publicou tr\u00eas estudos naquele dia: primeiro o de Watson e Crick, depois um de Wilkins e dois colegas e, por \u00faltimo, um estudo de Franklin e Gosling com dados experimentais.<\/p>\n<p>Ao aparecer em terceiro lugar, a contribui\u00e7\u00e3o de Franklin e Gosling foi vista pelos observadores como uma confirma\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o um elemento-chave da descoberta.<\/p>\n<p>No primeiro estudo, em uma frase celebremente vaga, Watson e Crick observam: &#8220;Tamb\u00e9m fomos estimulados pelo conhecimento da natureza geral dos resultados e ideias experimentais n\u00e3o publicados&#8221; de Wilkins, Franklin e seus colegas.<\/p>\n<p>Quando os artigos foram publicados na Nature, Rosalind Franklin j\u00e1 estava em outro laborat\u00f3rio de Londres, no Birkbeck College.<\/p>\n<p>A cientista, segundo Maddox, queria sair do King&#8217;s College &#8220;o mais r\u00e1pido poss\u00edvel&#8221; e refletiu: &#8220;Posso mudar de um pal\u00e1cio para um bairro humilde, mas tenho certeza que serei mais feliz&#8221;.<\/p>\n<h3>O sil\u00eancio no Nobel e os insultos de Watson<\/h3>\n<p>Em Birkbeck, Franklin se destacou por sua pesquisa sobre v\u00edrus, colaborou com Aaron Klug e descobriu que o v\u00edrus do mosaico do tabaco tinha uma organiza\u00e7\u00e3o e estrutura helicoidal.<\/p>\n<p>A cientista continuou este trabalho at\u00e9 sua morte por c\u00e2ncer de ov\u00e1rio em 1958, aos 37 anos.<\/p>\n<p>Quando a cerim\u00f4nia de entrega do Pr\u00eamio Nobel foi realizada em 1962 \u2014 uma honraria que n\u00e3o \u00e9 concedida postumamente \u2014, nem Watson, nem Crick, nem Wilkins reconheceram em seus discursos a import\u00e2ncia do trabalho de Franklin para a descoberta.<\/p>\n<p>Ironicamente, a contribui\u00e7\u00e3o de Franklin poderia ter sido esquecida se n\u00e3o fosse por Watson.<\/p>\n<p>No livro <em>A dupla h\u00e9lice<\/em>, publicado em 1968, uma d\u00e9cada ap\u00f3s a morte de Franklin, Watson faz mais de 80 men\u00e7\u00f5es \u00e0 cientista, &#8220;a quem cham\u00e1vamos de Rosy pelas costas&#8221;.<\/p>\n<p>Watson descreve Franklin como uma mulher agressiva &#8220;com atitudes b\u00e9licas&#8221;, que escondia seus dados e &#8220;que teve que ser colocada em seu lugar&#8221;.<\/p>\n<p>Ele se refere, inclusive, \u00e0 forma como a cientista se vestia e que &#8220;ela nunca usava batom para contrastar o cabelo preto&#8221;.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m faz alus\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia das &#8220;medi\u00e7\u00f5es precisas&#8221; de Franklin.<\/p>\n<p>E, em rela\u00e7\u00e3o ao relat\u00f3rio para o MRC, revela: &#8220;Rosy, claro, n\u00e3o nos deu seus dados diretamente. Al\u00e9m disso, ningu\u00e9m no King&#8217;s College sabia que estava em nossas m\u00e3os.&#8221;<\/p>\n<h3>Uma injusti\u00e7a &#8216;imperdo\u00e1vel&#8217;<\/h3>\n<p>Garc\u00eda-Sancho observa que a falta de reconhecimento de Franklin foi &#8220;uma injusti\u00e7a enorme e escandalosa&#8221;.<\/p>\n<p>Para Brenda Maddox, a maior injusti\u00e7a contra Franklin n\u00e3o foi Wilkins mostrar a foto 51 para Watson, conforme afirmou ao document\u00e1rio da r\u00e1dio australiana.<\/p>\n<p>Ela argumentou que, naquela \u00e9poca, Franklin estava saindo do King&#8217;s College \u2014 e foi Gosling quem deu a foto a Wilkins, que era seu superior.<\/p>\n<p>Mas Maddox destacou outra grande injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Watson, Crick e Franklin mantiveram contato durante anos. Eles comentaram seu trabalho com v\u00edrus, e Franklin chegou a ficar na casa de Crick e sua esposa.<\/p>\n<p>No entanto, &#8220;durante estes anos de colabora\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel, nunca disseram a ela: &#8216;Rosalind, n\u00e3o poder\u00edamos ter feito isso sem voc\u00ea&#8217;. Isso \u00e9 o que acho imperdo\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<h3>O legado de Franklin e sua foto<\/h3>\n<p>O t\u00famulo de Rosalind Franklin est\u00e1 localizado no cemit\u00e9rio judaico de Willesden, no noroeste de Londres. No epit\u00e1fio, n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o ao seu trabalho sobre DNA, mas pode-se ler:<\/p>\n<p>&#8220;Cientista. Suas pesquisas e descobertas sobre v\u00edrus continuam a beneficiar a humanidade.&#8221;<\/p>\n<p>Lourdes Campos \u00e9 especialista em cristalografia de raios X e biologia molecular da Universidade Polit\u00e9cnica da Catalunha. Para ela, &#8220;o principal legado que Rosalind Franklin nos deixou foi seu trabalho e seu exemplo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O amor pela ci\u00eancia e seu trabalho altru\u00edsta em benef\u00edcio da humanidade foram seus principais motores para enfrentar todas as adversidades que surgiram&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Rosalind viveu em uma \u00e9poca e em um pa\u00eds onde tinha tudo contra ela, o ambiente que ela vivia nos laborat\u00f3rios ingleses era muito duro, agora chamar\u00edamos isso de <em>bullying<\/em>. N\u00e3o a levavam em considera\u00e7\u00e3o, era como se n\u00e3o existisse, e ainda por cima zombavam dela. Poucas mulheres suportariam esse tratamento, nem naquela \u00e9poca, nem agora. Mas a\u00ed temos ela como um grande exemplo de coragem e perseveran\u00e7a para atingir seus objetivos.&#8221;<\/p>\n<p>Mart\u00ednez Pulido aponta que &#8220;as atitudes mis\u00f3ginas da comunidade cient\u00edfica est\u00e3o mudando&#8221;, em grande parte devido ao trabalho de historiadoras da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Mas \u00e9 uma mudan\u00e7a lenta, e o caminho pela frente ainda \u00e9 longo e cheio de obst\u00e1culos.&#8221;<\/p>\n<p>Sete d\u00e9cadas depois da Foto 51, a imagem representa para Mart\u00ednez Pulido duas faces da ci\u00eancia. Por um lado, a mais negativa, de hostilidade e trai\u00e7\u00e3o entre colegas.<\/p>\n<p>Por outro, &#8220;\u00e9 uma bela prova de como uma grande cientista com profundo conhecimento de sua especialidade conseguiu obter, por meio de uma tecnologia de alta complexidade, a imagem da mol\u00e9cula mais importante de seu tempo: o DNA.&#8221;<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/noticias\/bbc\/2022\/06\/06\/foto-51-a-fascinante-historia-por-tras-da-celebre-imagem-de-rosalind-franklin-da-estrutura-do-dna.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tirada h\u00e1 70 anos, a foto que foi essencial para decifrar a estrutura do DNA simboliza o talento de uma jovem cientista alvo do que muitos consideram uma injusti\u00e7a &#8216;imperdo\u00e1vel&#8217;. Nos arquivos da Universidade King&#8217;s College London, no Reino Unido, est\u00e1 guardado o original de uma das fotos mais famosas da hist\u00f3ria da ci\u00eancia. 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