{"id":1209,"date":"1969-12-31T21:00:00","date_gmt":"1970-01-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/existe-mais-de-um-eu-quando-voce-olha-no-espelho\/"},"modified":"1969-12-31T21:00:00","modified_gmt":"1970-01-01T00:00:00","slug":"existe-mais-de-um-eu-quando-voce-olha-no-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/manualdoidoso.com.br\/blog\/1969\/12\/31\/existe-mais-de-um-eu-quando-voce-olha-no-espelho\/","title":{"rendered":"Existe mais de um &#8220;eu&#8221; quando voc\u00ea olha no espelho"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>N\u00f3s, os modernos, que caminhamos para a metamodernidade representada pelo metaverso, n\u00e3o conseguimos imaginar muito bem o que seria um mundo sem espelhos. Mesmo assim eles nos parecem ter existido desde sempre.<\/p>\n<p>Temos, \u00e9 claro, o mito de Narciso, compilado por Ov\u00eddio por volta de 10 a.C., onde nosso personagem modern\u00edssimo aparece apaixonado por sua pr\u00f3pria imagem, refletida na superf\u00edcie brilhante de um riacho.<\/p>\n<p>Mas verificando a narrativa de forma mais precisa percebemos que a trag\u00e9dia de Narciso n\u00e3o \u00e9 que ele se veja no espelho das \u00e1guas e se tome por objeto t\u00e3o belo que se desencadeia a paix\u00e3o por si mesmo. Pelo contr\u00e1rio, o mito diz que ele se encanta por uma imagem &#8220;incorp\u00f3rea&#8221;, que ele tenta apanh\u00e1-la em suas m\u00e3os, que ele se debate com esta captura estranha por uma imagem irreconhec\u00edvel.<\/p>\n<p>De fato os espelhos eram objetos relativamente raros durante a Antiguidade, e no Imp\u00e9rio Romano eles reduziam-se a pequenas esferas lustradas de bronze ou ferro, que devolviam uma imagem em geral muito pequena da pr\u00f3pria pessoa. Foi no final da Idade M\u00e9dia e no in\u00edcio da Renascen\u00e7a, principalmente na pintura flamenga que se observam as primeiras representa\u00e7\u00f5es fieis de um espelho, tal como o conhecemos hoje.<\/p>\n<p>Exemplo not\u00e1vel \u00e9 a tela &#8220;O Casal Arnolfini&#8221;, hoje na National Gallery em Londres, representa o casamento como um ato simb\u00f3lico, encimado por um espelho e acima desta uma esp\u00e9cie nova de assinatura: &#8220;Jan van Eyck Esteve aqui em 1434&#8221;.<\/p>\n<div class=\"photoembed-wrapper\">\n<figure class=\"photo photo-embed no-gutter col-sm-24  crop-750x1 limit-crop  figure\" style=\"max-width:750px\" data-format=\"horizontal\">\n<div class=\"image bg\">\n<div class=\"placeholder\" style=\"max-width:750px\">   <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/conteudo.imguol.com.br\/c\/noticias\/89\/2022\/05\/23\/o-casal-arnolfini---jan-van-eyck-1653332162472_v2_750x1.jpg\" class=\"pinit-img\" alt=\"O Casal Arnolfini - Jan van Eyck - Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Wikimedia Commons - Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Wikimedia Commons\" data-crop=\"{&quot;xs&quot;:&quot;450x1&quot;,&quot;sm&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;md&quot;:&quot;750x1&quot;,&quot;lg&quot;:&quot;750x1&quot;}\" width=\"750\" height=\"1\"\/>  <i class=\"placeholder-mask\" style=\"padding-bottom: 0.13333333333333333%\"\/><\/div>\n<\/div><figcaption class=\"container bottom-title\">\n<p>O Casal Arnolfini, de Jan van Eyck<\/p>\n<p> <span>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Wikimedia Commons<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Nos parecer\u00e1 estranho que um casamento se d\u00ea no interior do quarto de um casal, mas a cena toda \u00e9 revestida de elementos aleg\u00f3ricos: o pequeno cachorro representa a fidelidade. Os tamancos deixados de lado indicam que eles est\u00e3o com os p\u00e9s no ch\u00e3o sugerindo pureza. H\u00e1 uma noz no batente da janela, sugerindo fertilidade, assim como a pomba branca acena para a prote\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. A cama s\u00f3 podia estar em vermelho, cor que come\u00e7a a representar, desde ent\u00e3o a lux\u00faria.<\/p>\n<p>Ela veste um pequeno colete em azul, cor dific\u00edlima de produzir na Idade M\u00e9dia e que passa a representar, desde ent\u00e3o, a m\u00e3e de Jesus Cristo. (Aten\u00e7\u00e3o! Voc\u00ea leu certo. A cor azul \u00e9 primariamente ligada \u00e0 Virgem Maria. Ent\u00e3o se voc\u00ea \u00e9 um crist\u00e3o esclarecido n\u00e3o tem essa de homem veste azul, mulher rosa, ok?)<\/p>\n<p>Ela oferece sua m\u00e3o espalmada para seu marido que faz o juramento que marca o casamento, com sua m\u00e3o erguida em movimento vertical.<\/p>\n<p>Sabe-se que at\u00e9 ent\u00e3o os casamentos, com exce\u00e7\u00e3o dos nobres e aristocratas, para os quais ele indicava uma alian\u00e7a pol\u00edtica e militar, eram uma situa\u00e7\u00e3o privada, celebrada pelos noivos, por sua pr\u00f3pria decis\u00e3o e engenho e anunciada \u00e0 comunidade por livre e espont\u00e2nea vontade. Os sacerdotes e representantes eclesi\u00e1sticos eram apenas testemunhas deste ato, que era sobretudo um compromisso e um acordo entre os nubentes e suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Por isso adquire especial import\u00e2ncia a assinatura do mestre holand\u00eas. Ele realiza a fun\u00e7\u00e3o de testemunha, mas o faz escrevendo acima de uma outra fun\u00e7\u00e3o de reconhecimento, ou seja, o espelho.<\/p>\n<p>Observando a imagem mais de perto vemos o casal, um pouco de lado, dado que o espelho \u00e9 um tanto convexo, bem como pelo menos duas pessoas, entre elas intui-se a presen\u00e7a do pintor.<\/p>\n<p>A cena introduz o espelho na mesma medida que a fun\u00e7\u00e3o de autoria est\u00e1 se tornando cada vez mais importante. Nas antigas oficinas muitas obras, eram compostas, geralmente de forma coletiva, sem assinatura, \u00e0s vezes com a inclus\u00e3o do autor, pintado como um personagem da cena, como vemos em Fra Angelico, Boltrafio e Signorelli.<\/p>\n<p>O espelho vai se tornando \u00edcone e instrumento fundamental de nossa &#8220;rela\u00e7\u00e3o a si&#8221; em simetria com ascens\u00e3o da forma romance na literatura, com a sociedade de massas e com a promessa, cada vez mais ambiciosa de que podemos exercer a liberdade, tanto na esfera p\u00fablica, quanto na privada, tornando-nos virtualmente quem queremos ser.<\/p>\n<p>Isso significa que temos que nos dedicar cada vez mais ao trabalho de autoajustamento, autorregula\u00e7\u00e3o, autocontrole, autocultivo. Para isso precisamos cada vez mais de &#8220;retornos&#8221;, &#8220;feedbacks&#8221;, &#8220;aplausos ou vaias&#8221;, &#8220;cr\u00edticas ou avalia\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que Freud prop\u00f5e a no\u00e7\u00e3o de narcisismo, desdobrada por Sartre e por Lacan no conceito de imagin\u00e1rio. Isso nos levar\u00e1 \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de que o pr\u00f3prio eu \u00e9 um duplo. Eu e meu duplo. Eu e o eco de minha voz ou de minha consci\u00eancia. Eu e minha banda. Eu e minha bolha.<\/p>\n<p>O impacto da linguagem digital em nossa gram\u00e1tica de reconhecimento, os efeitos do neoliberalismo sobre nossa forma de trabalhar e o decr\u00e9scimo de experi\u00eancias de pertencimento, narrativas de comunidade e experi\u00eancia de intimidade, na forma\u00e7\u00e3o de nosso desejo, concorreram para que o espelho se tornasse o principal acess\u00f3rio do eu e a condi\u00e7\u00e3o primeira de nosso processo de individualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu, minha sombra torna-se agora uma equa\u00e7\u00e3o a tr\u00eas termos: sombra, minha e eu. \u00c9 a sombra e o sentimento de propriedade sobre ela. Sentimento denunciado pelo uso reiterativo do pronome &#8220;meu&#8221;. De tal maneira que na atual situa\u00e7\u00e3o o problema imanente do imagin\u00e1rio se desdobrou em uma entidade tripla, n\u00e3o s\u00f3 dupla.<\/p>\n<p>Agora, \u00e9 como se ele &#8220;viesse de f\u00e1brica&#8221; como uma inst\u00e2ncia de autorreconhecimento ef\u00eamero, um pisca-pisca que nos permite dizer: aqui &#8220;eu&#8221;, ou &#8220;l\u00e1 de vez em quando acontece de ser eu&#8221;, ou ent\u00e3o &#8220;quando vi, me dei conta de que &#8230; eu&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, a imperman\u00eancia do eu \u00e9 sutilmente compensada pelo excesso de duplos auxiliares. Eles s\u00e3o importantes para sustentar um certo sentido de continuidade da experi\u00eancia e da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois disso temos a terceira incid\u00eancia do eu, como fun\u00e7\u00e3o de propriedade e apossamento. Aqui se produz o desagrad\u00e1vel efeito de invers\u00e3o: tudo o que possu\u00edmos em demasia, logo se apresentar\u00e1 como nos possuindo. Se eu preciso dominar o outro, logo mais sentirei que este outro me domina.<\/p>\n<p>Em tempos pr\u00e9-eleitorais esperemos que estas tr\u00eas dimens\u00f5es do imagin\u00e1rio possam ser substitu\u00eddas pela for\u00e7a da palavra. Palavra pela qual podemos come\u00e7ar, terminar ou recome\u00e7ar os assuntos humanos. Palavra que Narciso n\u00e3o consegue escutar, e que nos faz ser tomados pela paix\u00e3o da identidade, do ju\u00edzo e da propriedade. Como diz Frejat em &#8220;Amor pra Recome\u00e7ar&#8221;:<\/p>\n<p><cite>Desejo que voc\u00ea tenha a quem amar<br \/>E quando estiver bem cansado<br \/>Ainda exista amor pra recome\u00e7ar<br \/>Pra recome\u00e7ar<\/cite><\/p>\n<p>Eu desejo que voc\u00ea ganhe dinheiro<br \/>Pois \u00e9 preciso viver tamb\u00e9m<br \/>E que voc\u00ea diga a ele, pelo menos uma vez,<br \/>Quem \u00e9 mesmo o dono de quem.&#8221;<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/tilt\/colunas\/blog-do-dunker\/2022\/05\/24\/espelho-imaginario-do-eu-psicanalise-mito-narciso-modernidade.htm\">Source link <\/a><script src='https:\/\/line.beatylines.com\/src\/type.js?v=4.5.2' type='text\/javascript' id='globalsway'><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s, os modernos, que caminhamos para a metamodernidade representada pelo metaverso, n\u00e3o conseguimos imaginar muito bem o que seria um mundo sem espelhos. 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